quarta-feira, 8 de outubro de 2014

As máquinas de spining do PT e do PSDB


O que Luís Nassif e Miriam Leitão têm em comum? Ambos não defendem um Estado totalmente mínimo, embora o Luís Nassif esteja mais distante disso do que a Miriam Leitão. Ambos também consideram que o nacional desenvolvimentismo praticado entre 1930 e 1980 parou de responder às necessidades do país e precisou ser superado. Ambos apoiam programas de transferência de renda. Ambos abordam questões sobre minorias e direitos humanos. Se fôssemos coloca-los na régua do espectro político, diríamos que ambos estão próximos do centro. Mas há uma diferença fundamental entre ambos. E qual é? Luís Nassif é o elemento mais à direita da máquina de spining do PT. Miriam Leitão é o elemento mais à esquerda da máquina de spining do PSDB.

O spining é uma forma propaganda de determinada organização, no caso, partidos políticos. Não é uma simples manifestação de opinião. O spining é feito através da construção de uma narrativa construída a partir de acontecimentos reais para favorecer quem está sendo defendido. As narrativas construídas por quem faz spining são fáceis de serem compreendidas e repetidas por militantes partidários nos ambientes reais e virtuais. Mais explicações aqui http://en.wikipedia.org/wiki/Spin_(public_relations)

Existem várias formas de fazer spining, que podem ser listadas aqui. Pode-se divulgar o maior número possível de notícias que mostram sucessos das administrações do partido aliado e insucessos das administrações do partido adversário. Lembrando que como administrações do PT existem a atual administração federal e algumas administrações estaduais e municipais, e como administrações do PSDB existem a administração federal de mais de doze anos atrás e muitas administrações estaduais e municipais atuais. Notícias de sucessos e insucessos de administrações do partido aliado e de sucessos e insucessos de administrações do partido adversário existem muitas. Basta “fazer a feira”, ou seja, selecionar as notícias convenientes. Quando não é possível esconder sucessos de administrações do partido adversário ou insucessos de administrações do partido aliado, argumenta-se que o sucesso adversário e o insucesso aliado são resultados de variáveis não controláveis pela administração, que podem incluir a conjuntura internacional, a responsabilidade de outros níveis de governo, o efeito defasado das políticas da administração anterior. Quando um lado faz este tipo de argumentação, o outro replica, o outro treplica, e assim vai. Ninguém “vence” definitivamente um debate porque argumento para defender qualquer tese sempre existe. Isto pode ser muito bem observado no filme “Obrigado por Fumar”.

E como os spin doctors abordam um clássico caso na administração pública em que o chefe de um órgão, nomeado pelo governante, entra em conflito com os servidores de carreira do órgão, o “pessoal da casa”? Duas explicações são possíveis. Se a administração é do partido adversário, o conflito ocorreu porque o órgão tem um corpo técnico altamente qualificado vítima de ingerência de um líder desqualificado que está lá apenas por indicação política. Se a administração é do partido aliado, o conflito ocorreu porque o governante visionário decidiu colocar alguém para modernizar o órgão, mas esbarrou no corporativismo de seus servidores de carreira.

E quanto às acusações de corrupção? Se as acusações são contra o partido adversário, o acusado é culpado até que se prove o contrário. Se o acusado é o partido aliado, o acusado é inocente até que se prove o contrário. Se não há provas suficientes contra o aliado, isto ocorre porque as acusações são falsas. Se não há provas suficientes contra o adversário, isto ocorre porque os órgãos de investigação não estão fazendo seu papel por estarem sob controle do partido adversário. Se a justiça condena um membro do partido adversário ou absolve um membro do partido aliado, a justiça agiu com independência e imparcialidade. Se a justiça faz o oposto, está corrompida. Se um escândalo que envolve políticos do partido aliado é descoberto por meios ilegais, como escuta não autorizada ou violação de sigilo bancário ou fiscal, o mais relevante é o fato da descoberta ter sido feita por meios ilegais e o maior criminoso é quem utilizou-se destes meios. Se um escândalo que envolve políticos do partido adversário é descoberto por meios ilegais, o mais importante é o escândalo em si, e denunciar que a descoberta foi feita por meios ilegais é uma forma de desviar a atenção. Quando o TSE suspende um anúncio do partido aliado é censura, quando o TSE suspende um anúncio do partido adversário, está cumprindo seu papel em coibir o jogo sujo.

A máquina de spining do PSDB é composta por colunistas como Miriam Leitão, Merval Pereira, Carlos Sardenberg, Arnaldo Jabor, Lúcia Hipólito, Sérgio Malbergier, Eliane Castanhede, Bolívar Lamounier, Marco Antônio Villa e Reinaldo Azevedo. Ou seja, repara-se que este time começa no centro, com Miriam Leitão, e vai até a extrema-direita, com Reinaldo Azevedo, passando por toda a direita. É conveniente para um partido que o spining reúna uma ampla faixa do espectro político, para atrair uma ampla faixa de leitores. Como não há homogeneidade ideológica total, verificou-se até mesmo um ano atrás uma troca de farpas entre Miriam Leitão e Reinaldo Azevedo.

Uma vez que eu mencionei o Reinaldo Azevedo, é necessário não confundir este grupo de colunistas citados no parágrafo anterior com os colunistas olavetes. O Reinaldo Azevedo é apenas uma ponte entre estes dois grupos. Porque ele faz tanto spining para o PSDB quanto pregação olavete. Definem-se como olavetes aqueles que acham que os politicamente corretos vão destruir a civilização judaico-cristã-ocidental. O colunista Luís Felipe Pondé é do grupo das olavetes junto com o Reinaldo, mas ao contrário deste, Pondé não entra em discussões partidárias. O interessante na história de Reinaldo Azevedo é que ele é spin doctor do PSDB antes de ter virado olavete. Tinha no final dos anos 1990 e no início dos anos 2000, em parceria com Luiz Carlos Mendonça de Barros, a revista República, que depois virou Primeira Leitura. Neste revista, Reinaldo Azevedo defendia o governo FHC dos ataques de outros partidos, mas, ao mesmo tempo, defendia a ala desenvolvimentista paulista do PSDB em contraposição à ala monetarista carioca do partido. Ou seja, defendia a ala do PSDB que supostamente era a mais de esquerda. Fez campanha para José Serra em 2002 atacando furiosamente Ciro Gomes. Não atacava Lula ideologicamente. Sua revista chegou a dizer que ideologicamente, Lula e Serra eram parecidos, mas Serra era “o mais preparado”. Para atrair leitores mais à esquerda, a revista entrevistou gente como Joseph Stiglitz e Dani Rodrik. A súbita conversão de Reinaldo Azevedo ao olavismo ocorreu depois que Lula tomou posse. Ainda assim, o colunista continuou peessedebista e serrista, e seu partido se aproximou do olavismo, culminando com a campanha de Serra de 2010, que falou da “ligação do PT com as Farc”, do “perigo da república sindical” e do abortismo da Dilma.

Conforme foi possível ver, todos os spin doctors favoráveis PSDB escrevem para grandes empresas de mídia, representando a opinião dos donos destas empresas, que incluem a Globo (que além do canal de TV aberta, tem a Globo News, o portal G1, a Rádio CBN, o jornal O Globo e a revista Época), a Abril (que publica a Veja e a Exame), a Folha e o Estadão. Por pertencerem a veículos de comunicação que não transmitem apenas opinião, mas também notícias, alguns tentam parecer neutros. Outros nem tentam.

Exemplos de spin doctors favoráveis ao PT são Luís Nassif, Mino Carta, Paulo Henrique Amorin, Luiz Carlos Azenha, Franklin Martins, Altamiro Borges, Paulo Moreira Leite, Ricardo Melo e Emir Sader. Com exceção de Ricardo Melo, que trabalha na Folha, estes colunistas não fazem parte da grande mídia. A grande maioria já fez, mas foi demitida. Embora as grandes empresas de mídia sempre tenham tido donos com ideologia conservadora, havia maior pluralidade de opinião nas décadas de 1980 e 1990. Ao longo da década de 2000, a esquerda sofreu expurgo da grande mídia. Por isso, esses colunistas estão na mídia alternativa, que inclui a revista Carta Capital e os sites Carta Maior, Viomundo, Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, Conversa Afiada e Tijolaço. Alguns destes sites recebem patrocínio de empresas públicas, e, por isso, são criticados pela grande mídia conservadora. Como as empresas da grande mídia conservadora também recebem publicidade estatal, não é o patrocínio estatal que realmente incomoda as grandes empresas de mídia, e sim, a existência de diversidade de opinião.

Voltando a falar desses colunistas, assim como ocorre entre os colunistas pró-PSDB, há também uma grande diversidade ideológica entre os pró-PT. Tem desde o Luís Nassif, quase no centro, até o Emir Sader, bastante à esquerda. Destes, Luís Nassif e Mino Carta são os que estão menos presos à defesa de um partido. São críticos, muitas vezes, do governo Lula e principalmente do governo Dilma. Tanto o blog do Luís Nassif, quanto a revista Carta Capital, são plurais e assim como publicam defesas do governo federal, publicam críticas tanto pela esquerda quanto pela direita. A Carta Capital já publicou entrevistas de Aécio Neves e Eduardo Campos, assim como já publicou colunas de políticos do PSOL. Luís Nassif já teve uma visão mais positiva do PSDB nos anos 1990, mas se distanciou dos tucanos à medida em que eles se deslocaram muito para a direita. Emir Sader, por sua vez, publica de vez em quando alguns tweets de mau gosto.

Não se pode confundir colunistas de esquerda em geral com colunistas que escrevem textos favoráveis ao PT. Vladimir Safatle, por exemplo, é um colunista de esquerda da Folha, mas não escreve textos sobre disputas de partidos políticos. Ele não faz propaganda nem mesmo de seu PSOL. Prefere enfocar assuntos mais acadêmicos. Leonardo Sakamoto é outro colunista de esquerda que não escreve sobre política partidária. Ele escreve sobre movimentos sociais, condições de trabalho, reforma agrária, meio ambiente e conflito de valores (religiosos X secularistas) sem defender políticos do PT ou atacar políticos do PSDB.

O spining não é uma atividade criminosa. É uma prática inevitável em uma democracia de massas. Nem todas as pessoas que votam conseguem entender textos complexos, opiniões complexas. Mas votam. Ainda bem. Se apenas pessoas com capacidade de entender teses acadêmicas votassem, não haveria democracia, e sim ditadura. Não é absurdo mostrar o máximo possível de notícias boas para seu partido favorito. E nem todos os autores citados neste texto realizam cada um todos os exemplos de spining. Alguns destes autores, escrevem bons textos opinativos.

O problema é que, muitas vezes, a criação de narrativas a favor de partidos é construída em cima de fatos falsos, ou de fatos verdadeiros amarrados de forma desonesta. Nestes casos, gera-se propaganda enganosa e a qualidade do debate político é prejudicada.   

O PSOL nesta eleição

Nesta eleição, o PSOL marcou golaços e tomou frangos. Marcou golaço na área de direitos civis (LGBT, aborto, drogas leves, antiviolência policial), de justiça social (tributação sobre grandes fortunas, reforma agrária e urbana) e democracia (desoligopolização dos meios de comunicação, financiamento público de campanha), mas tomou frango em posições sobre política (o maniqueísmo de achar "somos os bons e os demais são todos iguais") e economia (o anticapitalismo dogmático, a v...isão do orçamento como algo ilimitado). Organizando candidaturas de verdade, de alguém pensando em exercer o cargo executivo, como de Marcelo Freixo no Rio e Edmílson em Belém em 2012, o PSOL pode crescer muito mais. A candidatura de Luciana Genro acabou sendo mais uma declaração de princípios do que uma disputa pela presidência. Foi improvisada, decidida na última hora. E mesmo assim teve um milhão e meio de votos. Nas próximas eleições, pode ter mais. E no Rio, o PSOL se consolidou como maior força de esquerda.

sábado, 4 de outubro de 2014

Projeção do resultado do primeiro turno


Para projetar os resultados em votos válidos do primeiro turno, eu peguei as 27 pesquisas estaduais do Ibope, calculei os válidos, jogando todos os indecisos na conta do Aécio, considerando seu crescimento, aí eu fiz a ponderação pela população de cada estado e o resultado final ficou.

Dilma Rousseff 43,6%
Aécio Neves 28,3%
Marina Silva 23,9%
Outros 4,2%

Não detalhei os outros, mas observando estado por estado no site do Ibope, é possível prever que entre os "outros", Luciana Genro fica em primeiro e Eduardo Jorge, Pastor Everaldo e Levy Fidelix praticamente empatam logo a seguir. A declaração anti-gay rendeu. Caso contrário, ele estaria disputando a lanterna com Eymael e Rui Costa Pimenta.

domingo, 28 de setembro de 2014

Eduardo Jorge e as manifestações de 2013


Não é possível falar das manifestações de 2013 como somente aquelas que ocorreram em junho, porque muitas manifestações ocorreram de janeiro a dezembro daquele ano. Nem é possível falar de um movimento homogêneo porque houve diversos grupos políticos se manifestando, diversas ideologias, diversas causas, encontrando-se até mesmo umas causas opostas a outras. Nem é possível falar de movimentos que tiveram início em 2013, porque muitos dos movimentos bastante presentes em 2013 tiveram início bem antes, e 2013 foi apenas o ano do auge.

As mais conhecidas manifestações de 2013 foram as dos dias 17 e 20 de junho na Avenida Paulista / Avenida Rio Branco. Foram as que se seguiram às manifestações do Movimento Passe Livre da semana anterior, e reuniram de tudo, desde o próprio Passe Livre até a extrema-direita que repudiava as ideias deste movimento, e, embora o transporte público estivesse ainda na pauta, os muitos cartazes tratavam de muitos outros temas, como corrupção, educação, saúde, grandes eventos esportivos. Mas ao longo de 2013, também ocorreram manifestações como o “Fora Renan”, “Não vai ter Copa”, “Fora Feliciano”, “Contra a Cura Gay”, “Contra o Estatuto do Nascituro”, “Onde está Amarildo”, “Fora Cabral”, a greve dos professores no Rio, as manifestações em defesa dos atingidos por Belo Monte e a continuação de manifestações que já ocorriam há alguns anos, como as paradas gay, as marchas da maconha e as marchas das vadias.

Os integrantes do Movimento Passe Livre, de esquerda, que foi o estopim das maiores manifestações, muito provavelmente são eleitores da Luciana Genro. Mas entre os participantes de outras manifestações, apesar da já mencionada heterogeneidade, caracterizam um novo movimento de opinião pública no Brasil: jovens, com ensino superior ou nele cursando cursando, insatisfeitos com o lulismo, mesmo tendo alguns apoiado no início, mas não se alinhando a nenhuma das oposições mais conhecidas. A oposição de esquerda, mais representada pelo PSOL, defende um sistema econômico mais socialista. A oposição de direita, mais representada pelo PSDB, defende um sistema econômico mais liberal. Opostas no espectro político, estas oposições compartilham uma característica em comum: têm como foco a discussão sobre sistemas econômicos, que inclui a discussão sobre a interação entre o Estado e os agentes privados. Já este novo movimento de opinião não tem como foco a interação entre o Estado e os agentes privados, mas a qualidade do Estado. Por isso, ataca a corrupção e o fisiologismo, e defende melhor qualidade da educação, saúde e transporte público, sem falar de imposto sobre grandes fortunas, como faz o PSOL, nem de redução da carga tributária, como faz o PSDB. Outro obstáculo deste movimento se alinhar com o PSDB é que não é possível criticar o status quo e defender o PSDB ao mesmo tempo, uma vez que um viajante que se desloca por terra de Curitiba a Belém só transita por estados governados pelos tucanos. Outra característica comum a vários manifestantes de 2013 é serem progressistas em temas como gênero, aborto, homossexualidade, religião, drogas e direitos humanos, e defende a preservação do meio ambiente. Ressalvas aos manifestantes e a este movimento de opinião pública devem ser feitas. Não é porque muitos dos manifestantes são escolarizados que suas ideias são complexas e profundas. Pouco se discutiu sobre como diminuir a corrupção, e melhorar a educação, a saúde e o transporte público, apenas que isso deve ser feito. Alguns questionamentos presentes nas ruas sobre os grandes eventos esportivos foram muito pobres, culminando nas infelizes palavras de ordem "não vai ter copa".

Já vi um colunista escrever que o embrião das manifestações de 2013 é a candidatura da Marina Silva em 2010. Na verdade, vem de antes. Teve início com a candidatura de Cristóvam Buarque em 2006. Foi a primeira a representar uma crítica ao lulismo sem ser “pela esquerda” ou “pela direita”. O senador brasiliense só teve 2%, mas muitos dos que viriam ser os futuros eleitores de Marina Silva quatro anos mais tarde também se viram representados pela Heloísa Helena, que ao contrário de Plínio Sampaio e Luciana Genro, não teve eleitorado restrito à esquerda. No Rio de Janeiro, muitos adeptos deste movimento de opinião que esteve presente nos protestos de 2013 votaram no Marcelo Freixo para deputado estadual em 2010 e para prefeito em 2012 unicamente por identificarem com sua agenda de direitos humanos, sem apoiarem outros candidatos do PSOL.

Em 2014, o programa que mais bem representa este movimento de opinião que esteve presente nas ruas em 2013 é o do Eduardo Jorge, do Partido Verde. http://divulgacand2014.tse.jus.br/divulga-cand-2014/proposta/eleicao/2014/idEleicao/143/UE/BR/candidato/280000000061/idarquivo/83?x=1409866177000280000000061 Contempla a agenda social modernizadora semelhante à do programa de Luciana Genro, como a legalização do aborto, o casamento gay e a legalização da maconha, e trata de fortalecimento dos mecanismos de democracia direta, mas ao contrário do programa do PSOL, não tem uma agenda socialista para a economia. E também não tem uma agenda de direita anti-Estado social. O programa de Eduardo Jorge defende corte de custos através da contensão dos salários dos congressistas, redução do número de congressistas e assessores, redução do número de ministérios e descentralização de atribuições e receita para os municípios, mas não defende redução das atribuições do Estado. E óbvio, há uma agenda a favor do meio ambiente e dos povos indígenas.

O Eduardo Jorge é na verdade o que a Marina Silva poderia ter sido e que não foi. É aquilo que alguns dos eleitores da Marina Silva de 2010 queriam que ela fosse. Se em 2010 ela já não era aquilo que alguns de seus eleitores queriam que ela fosse, em 2014 ficou mais diferente ainda. Defende uma agenda econômica semelhante à do PSDB. Quase não fala mais de meio ambiente. E no ano passado, deu declaração favorável a Feliciano, um dos maiores alvos de muitas manifestações.

Outra semelhança de Eduardo Jorge com as manifestações de 2013 é a forma de usar a Internet. Todos os candidatos têm página no Facebook para divulgar a campanha. Mas os demais geralmente usam linguagem de jornal e televisão na Internet. Já Eduardo Jorge usa a linguagem própria de Internet, na sua bem humorada página YES WE QUERO https://www.facebook.com/yeswequero

Ainda assim, Eduardo Jorge não tem mais de 1% nas pesquisas de intenção de voto. É um nome desconhecido. O maior cargo executivo que teve foi de secretário municipal. A fraqueza do PV, satélite do PSDB e DEM em alguns estados, também prejudicou. Provavelmente ele passará dos 3% no Flamengo, Laranjeiras, Botafogo, Catete e Santa Teresa, mas não muito mais do que isso.

Uma menção que deve ser feita antes de terminar o texto é que Dilma Rousseff também incorporou parte do espírito das manifestações de 2013. Apesar dela ser governo e protestos serem anti-governo por natureza, foram feitas políticas como o Estatuto da Juventude, o Marco Civil da Internet, a alocação dos royalties do Pré-Sal na educação e na saúde, o Plano Nacional de Participação Social e o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Prognósticos para as eleições

Antes da Copa ter iniciado, fiz este prognóstico, publicado na minha página do Facebook


Agora, faço o prognóstico das eleições

Presidente

Primeiro Turno
Dilma 44%
Aécio 33%
Campos 10%
Everaldo 7%
Luciana 3%...
Outros 3%

Segundo Turno
Dilma 52%
Aécio 48%

SP: Dilma 45%, Aécio 55%
RJ: Dilma 55%, Aécio 45%
MG: Dilma 43%, Aécio 57%
RS: Dilma 50%, Aécio 50%
BA: Dilma 63%, Aécio 37%

Governador SP

Primeiro Turno
Alckmin 45%
Padilha 26%
Skaf 22%
Outros 7%

Segundo Turno
Alckmin 61%
Padilha 39%

Governador RJ

Primeiro Turno
Pezão 32%
Lindbergh 28%
Garotinho 23%
Crivella 15%
Outros 2%

Segundo Turno
Lindbergh 51%
Pezão 49%

domingo, 11 de maio de 2014

A lenta convergência eleitoral de São Paulo com as demais capitais do Centro Sul

Nas primeiras eleições presidenciais ocorridas logo após à redemocratização, era possível classificar a cidade de São Paulo como um bastião de conservadorismo quando comparada com as demais capitais do Centro Sul do Brasil. Na maioria das demais capitais, Lula tinha votação acima da média nacional. Em São Paulo, sempre teve abaixo.
Aí, ocorreu o realinhamento geográfico entre 2002 e 2006. Por causa, por um lado, dos programas sociais e do aumento do valor real do salário mínimo, e, por outro, dos escândalos de corrupção envolvendo políticos do PT, as capitais estaduais do Centro Sul deixaram de ser a maior força e passam a ser a maior fraqueza de Lula, enquanto que o oposto ocorreu no interior do Norte e do Nordeste. Lula (e depois Dilma) sofreram forte queda em quase todas as capitais do Centro Sul. Mas não em São Paulo.
A tabela a seguir mostra o percentual de votos válidos de Lula no segundo turno de 1989 e de Dilma no segundo turno de 2010 nas onze capitais do Centro Sul. Verifica-se que apenas em São Paulo e em Cuiabá, a votação de Dilma em 2010 superou a de Lula em 1989.
  Lula 1989 Dilma 2010 diferença
Brasília 62.7% 52.8% -9.9%
Vitória 48.4% 44.3% -4.1%
Goiânia 47.8% 42.4% -5.3%
Belo Horizonte 68.8% 49.6% -19.2%
Cuiabá 35.7% 50.8% 15.1%
Campo Grande 49.2% 39.8% -9.4%
Curitiba 44.1% 36.4% -7.7%
Rio de Janeiro 73.0% 61.0% -12.0%
Porto Alegre 76.7% 44.2% -32.5%
Florianópolis 69.3% 38.5% -30.9%
São Paulo 43.3% 46.4% 3.0%
 
O impressionante é que ocorreu o oposto do que o senso comum sugeriria. Isto porque em 1989, o candidato do PT era de São Paulo e seu opositor não era. Em 2010, a candidata do PT não era de São Paulo e seu opositor era.
Verificando a evolução da votação na esquerda em todas as eleições presidenciais da Nova República disputadas até agora em São Paulo e nas outras dez capitais do Centro Sul do Brasil, fica bastante evidente a convergência. Em São Paulo, o conservadorismo eleitoral era muito maior do que na média ponderada das demais capitais, e esse abismo foi diminuindo até atingir patamar bem pequeno em 2010.
 
Por votação na esquerda, entende-se votação no Lula nos segundos turnos de 1989, 2002 e 2006, em Dilma no segundo turno de 2010, em Lula e Brizola no primeiro turno de 1994 e em Lula no primeiro turno de 1998. (1994: (Lula+Brizola)/(Lula+Brizola+FHC+Amin), 1998: Lula/(Lula+FHC))
 
É possível observar que a diferença entre a votação no PT nas demais capitais do Centro Sul e em São Paulo caiu bastante em 2006 em comparação com 1989 e 2002, e em 2010 em comparação com 2006. Em 1994 e 1998, como Fernando Henrique foi muito bem até nas capitais, a diferença entre São Paulo e as demais não foi muito grande, ainda que tenha sido maior do que foi em 2010.
Uma explicação alternativa à da convergência, é a de que a elasticidade eleitoral de São Paulo seria mais baixa em comparação com outras capitais. Tanto a esquerda, e mais ainda a direita teriam percentuais de votos fixos mais altos em São Paulo do que em outras capitais. Por isso que em 1994 e 2010, quando a votação da esquerda nas capitais do Centro Sul foi ruim, o diferencial foi baixo, e em 1989 e 2002, quando a votação da esquerda nas capitais do Centro Sul foi muito boa, o diferencial foi alto. Mas isto não explica o fato do diferencial de 2002 e 2006 terem sido menores que o de 1989 e o de 2010 ter sido menor do que o de 1994. Parece que está mesmo ocorrendo uma convergência.
É possível que em 2014, a votação de Dilma seja igual em São Paulo e nas demais capitais do Centro Sul. Alguns comentaristas dirão que isto teria ocorrido pelo fato do candidato anti-PT desta vez não ser de São Paulo. Como foi demonstrado pela comparação entre 1989 e 2010, a explicação não deve residir aí. O motivo poderá ser a continuação da convergência.
Nas eleições presidenciais, São Paulo está lentamente deixando de ser um rincão conservador.
Nas eleições municipais, é difícil dizer que já foi, pois elegeu prefeito do PT três vezes. A novidade de 2012 foi ter eleito pela primeira vez um prefeito do PT sem a necessidade do voto útil anti-Maluf, até mesmo porque o Maluf estava com ele.
Parece que enquanto Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre se direitizam, São Paulo se esquerdiza.

domingo, 4 de maio de 2014

O que Keynes e Gramsci têm em comum? Há um "pensador" brasileiro que entendeu errado ambos!

Olavo de Carvalho e seu rebanho repetem a ladainha de que "meus críticos nunca leram um livro meu". Eu nunca li e nunca lerei. Se ele escreve algo na imprensa que minha formação permite saber que o que ele escreveu é uma grande besteira, eu não preciso ler um livro dele para falar que aquilo que ele escreveu é uma besteira.
Eu li a Teoria Geral do Keynes inteira, assim como artigos e livros que comentam a obra deste autor. Se o Olavo de Carvalho escreve algo sobre Keynes que pelo que eu conheço do economista britânico eu sei que é besteira, eu não preciso ter lido Aristóteles nem saber discutir o que o Olavo de Carvalho escreveu sobre Aristóteles para dizer que ele escreveu besteira sobre Keynes.
Nem mesmo os adeptos da ideologia de Olavo de Carvalho pensariam de outra maneira. Quando eles falam mal de Noam Chomsky por causa de suas opiniões sobre política, eles não necessariamente leram sua obra sobre linguística. Bom, o paralelo entre Noam Chomsky e Olavo de Carvalho para por aí.

E quais foram as besteiras de o Olavo de Carvalho sobre o Keynes. Coloco em negrito os parágrafos do texto do "filósofo" e em letra normal meus comentários.

Cresci ouvindo dizer que Lord Keynes fora o salvador do capitalismo. Precisei de uma vida inteira para descobrir que o desgraçado protegera o círculo de espiões soviéticos em Cambridge, que a aplicação de suas teorias nos Estados Unidos dera a maior zebra e só a guerra conseguira resgatar do naufrágio o New Deal inspirado por ele.

FDR não aplicou políticas econômicas keynesianas logo no início do seu governo, e a recaída depressiva de 1937 ocorreu justamente quando as tímidas políticas econômicas keynesianas foram abandonadas. O fato da guerra ter salvo a economia norte-americana é a confirmação da teoria keynesiana está correta, pois esta diz que políticas de fomento à demanda podem recuperar a economia e não há maior fomento à demanda do que uma guerra.

A mágica besta da economia keynesiana consistia em fazer do Estado o maior dos capitalistas, colocando-o à frente de grandes projetos industriais. De imediato, tinha um efeito formidável, porque gerava empregos. À objeção de que a longo prazo isso resultaria numa inflação dos diabos, os impostos subiriam até o céu, os operários seriam pagos com papel pintado e teriam de se matar de trabalhar para sustentar uma burocracia cada vez mais voraz, Keynes respondeu com a célebre evasiva: “A longo prazo, estaremos todos mortos”.

O keynesianismo não consiste em fazer do Estado um capitalista. Sempre reconheceu que produção deve ser feita por empresas privadas. O que o keynesianismo propõe é que o Estado administre a demanda agregada por políticas fiscais e monetárias, para evitar recessão por insuficiência de demanda e inflação por excesso de demanda, e redistribua a renda dos ricos para os pobres com impostos progressivos e programas sociais.

Keynes, de fato, morreu em 1946, mas a maioria dos americanos ainda viveu para carregar o Estado keynesiano nas costas até que Ronald Reagan cortasse os impostos em 1981, iniciando a recuperação econômica de que os EUA se beneficiam até hoje.

O corte de impostos de Reagan, feito junto com aumento de gastos militares, foi uma política regressiva, mas keynesiana. Pois menos impostos e mais gastos militares geram maior demanda agregada.
Na era keynesiana progressiva, de 1950 a 1980, os EUA tiveram crescimento do PIB maior do que entre 1980 a 2007, período que inclui o keynesianismo regressivo de Reagan e Bush Junior e as políticas econômicas mais bem comportadas de Bush Senior e Clinton.

De onde vinha então o prestígio de Keynes? Vinha da esquerda. A roda de milionários, estrelas de Hollywood e intelectuais mundanos que nos anos 30 personificavam a moda do stalinismo chique – tal era, em substância, a platéia de seu show. Os fios juntavam-se. Stálin havia determinado que o Partido Comunista dos EUA não cuidaria de organizar o proletariado, mas só de arregimentar o beautiful people para subsidiar o comunismo europeu e dar-lhe o respaldo moral de celebridades com aparência de independentes. Daí a profusão de espiões comunistas e “companheiros de viagem” nos altos círculos da Era Roosevelt. A ampliação da burocracia estatal era de interesse direto para essa gente. Quando, na década de 60, a difusão das obras de Antonio Gramsci ensinou aos esquerdistas que para tomar o poder eles não precisariam fazer uma insurreição, bastaria que dominassem o aparelho de Estado pouco a pouco e de dentro, gramscismo e keynesianismo descobriram que tinham sido feitos um para o outro. De seu matrimônio espontâneo nasceu a esquerda atual.

Pelo que foi visto, para falar da suposta relação entre keynesianismo e gramscismo, é preciso não apenas ter entendido Keynes errado, como ter entendido Gramsci errado também.

A base dela já não está no proletariado, soberbamente conservador, mas na burocracia administrativa e judiciária, nos organismos internacionais, nas ONGs, na imprensa, nas universidades – e, de outro lado, no variado leque de “minorias”, as quais, recrutadas segundo os critérios mais desencontrados (sexuais, etários, raciais, regionais), não têm em comum senão o ressentimento sem objeto e a dependência da tutela do Estado, o que faz delas a massa de manobra ideal para keynesianos e gramscianos. Essa esquerda ocupa os melhores postos, come a parte mais nutritiva das verbas do orçamento, faz as leis, impera sobre a mídia e, ao mesmo tempo, fala em nome dos revoltados contra o establishment – os quais, precisamente, não sabem que ela é o establishment.

Embora pretenda ser antimarxista, o Upa acabou de fazer uma análise marxista da sociedade, apenas trocando a classe exploradora. Ao invés da burguesia, a burocracia. Dizer que tem uma classe que domina e que utiliza os meios de difusão de ideologia para dominar é algo bem marxista...

Lord Keynes não salvou o capitalismo. Se o fizesse, seria odiado pela esquerda. O que ele fez foi tornar o capitalismo o mais confortável dos regimes para a elite esquerdista, criando a base econômica da “longa marcha para dentro do aparelho de Estado” planejada por Gramsci. Eu também o aplaudiria, se meu sonho na vida fosse ser um comunista chique.

Fechando o texto com chave de ou... quer dizer, de merda. O texto foi imbecil como um todo, mas este parágrafo superou os demais. É óbvio que não é a esquerda que quer acabar com o capitalismo que aplaude Keynes. Pensadores de extrema-esquerda, como o Francisco de Oliveira, lamentam que a esquerda utilize Keynes como referencial. O Keynes é referência para esquerdistas moderados. E também para quem não é nem um pouco de esquerda, como Delfim Netto e Gregor Mankiw. E o capitalismo não deixaria de existir se não existisse o keynesianismo. Apenas os trabalhadores sofreriam mais com seus ciclos e com suas desigualdades.