domingo, 11 de outubro de 2015

Paradoxo no debate sobre educação básica no Brasil

No debate brasileiro atual sobre educação básica, há dois grupos claramente delimitados, que pregam políticas bem diferentes. O primeiro grupo tem empresários, economistas, administradores, fundações empresariais e organizações internacionais para promoção de desenvolvimento, como o Banco Mundial. O segundo grupo tem docentes sindicalizados e acadêmicos na área de pedagogia. Se dependesse apenas do primeiro grupo, teríamos um dirigismo bem soviético. Se dependesse apenas do segundo grupo, teríamos um laissez-faire total. Não, eu não me confundi, é isso mesmo. Atores políticos que normalmente pregam economia livre de intervenção do Estado são extremamente top-down na hora de falar de educação. E atores políticos que defendem maior intervenção do Estado na economia são bem anti-intervenção na hora de falar de educação.
Empresários, economistas, administradores, fundações empresariais e Banco Mundial defendem um currículo nacional que todas as escolas, todos os professores devem seguir, uma avaliação padronizada nacional baseada neste currículo para medir o desempenho de redes educacionais e de escolas, uma política de consequências relacionada com o resultado dessa avaliação, que pode incluir tanto remuneração extra por bons resultados, quanto afastamento de diretores, um material didático padronizado que pode ser apostilado. Docentes sindicalizados e acadêmicos na área de pedagogia defendem maior autonomia para o professor. Maior autonomia para escolher o que ensinar, como ensinar, que material didático utilizar, como avaliar.
Eu não sou moderate hero por regra, mas neste debate eu fico com a opinião do meio. Sou a favor de um currículo nacional, mas desde que este currículo ocupe metade do tempo das aulas. A outra metade, o professor teria que ter autonomia para preencher. Sou a favor de autonomia para cima deste currículo, mas não para baixo. Diferenças sociais e regionais no Brasil não justificam a ausência de qualquer padronização. Equação é a mesma coisa no norte e no sul do Brasil. Leis da ciência também. Sou a favor de uma avaliação padronizada nacional, mas não de política de remuneração variável vinculada a este avaliação. Esta política foi implementada primeiro nos Estados Unidos, que já estão revendo, por não terem verificado êxito. Por outro lado, a avaliação, em si, é importante, porque dá mais transparência para o sistema educacional e auxilia até mesmo a escola e o professor no seu planejamento de aulas. Sem a política de remuneração variável, seria mais fácil o professor perceber que a avaliação padronizada é aliada dele, e não inimiga. Quanto ao material apostilado, não sou muito favorável. Isto seria assumir que os professores serão sempre incompetentes para elaborar a própria aula.

Os entusiastas da autonomia, autonomia e autonomia perguntarão: mas e a Finlândia, que não tem currículo nacional, que dá muita autonomia para o professor, e tem o melhor sistema educacional do Ocidente? Resposta simples: a Finlândia só aboliu o currículo nacional e introduziu a autonomia na metade dos anos 1990, depois do país já ter atingido um elevado patamar. Antes disso, a Finlândia tinha um rígido currículo nacional e uma rígida formação de professores. Manteve a rígida formação de professores. Este texto explica bem http://edexcellence.net/commentary/education-gadfly-weekly/2013/january-3/real-lessons-from-finland.html
Autonomia pode ser uma política adequada para passar do bom para o excelente, mas não do ruim para o bom.

sábado, 10 de outubro de 2015

Excesso de boatos sobre o Lula e o PT e partidarização da mídia criaram má vontade para perceber as verdades

Acho que todos, durante a infância, já ouviram a professora contando a fábula do mentiroso. Havia um menino que adorava pregar peça nos seus colegas. Sempre inventava histórias. Os outros eram enganados. Um dia, ele foi com seus colegas para um bosque, que tinha um rio. Ele pulou no rio e gritou falando que estava se afogando. Seus colegas pensaram que era mais uma de suas muitas mentiras e, por isso, não foram ajudar. Mas aquilo não era mentira. Ele estava se afogando mesmo. E morreu afogado.
Esta história não é estranha para eu e muitos outros que por muito tempo votamos no PT. Depois que foi descoberto em detalhes o escândalo da Petrobras, não há mais muito o que justificar. Como foi revelado que não apenas o PMDB e o PP, mas o próprio PT, receberam dinheiro da propina, a desculpa da governabilidade do tempo do mensalão, que já era ruim, foi pro saco. Não é mais possível dizer que "precisava formar uma maioria no Congresso para poder governar" porque seria estranho achar que PMDB e PP, para votar com o governo, exigiriam que o PT também ficasse com parte do dinheiro. O "sempre foi assim, todo mundo fez, é que agora está sendo mais investigado" perdeu o prazo de validade. Temos que nos revoltar mais quando o partido que um dia já foi nosso fez merda do que quando os outros fizeram. Além disso, o PT até 2002 tinha uma fama de partido honesto, na qual até quem não gostava deste partido acreditava. Natural que a revolta de parte da população com o PT seja maior, mesmo tendo outros partidos participado de escândalos de corrupção. E não é só isso. É verdade que logo depois que o mensalão foi revelado em 2005, Lula e o PT tiveram atitudes corretas. Delúbio foi afastado do partido. Lula demitiu os ministros envolvidos. O deputado Delcídio, do PT-MS, quando foi presidente da CPI dos Correios, não impediu os trabalhos. Porém, depois de 2010, o PT teve atitudes injustificáveis. Readmitiu Delúbio, não afastou os condenados pelo STF, continuou defendendo Vaccari. E o problema do PT não é só corrupção. Quem votava no PT dava muito valor à educação e saúde públicas. De 2002 para cá, a renda dos pobres melhorou, mas a educação e a saúde públicas continuaram deixando a desejar. E não adianta falar que isto é responsabilidade dos governos locais, porque se em todos os estados estes serviços são precários, isto é sinal de que o governo federal também não fez sua parte.
Mas o que fez tanta gente que por muito tempo votou no PT desconfiar tanto do discurso anti-PT? Porque muita boataria contra o PT foi espalhada na Internet, porque a forte partidarização da grande mídia gera desconfiança, porque tem muito mau caratismo escondido por trás do discurso anti-PT.
Em 2014, circulou na Internet que as urnas eletrônicas estavam viciadas, que Youssef havia sido envenenado na véspera do segundo turno, que Dilma tinha mandado derrubar o avião do Eduardo Campos. Em 2010, circulou na Internet que o PT iria censurar a imprensa, que José Dirceu teria algum cargo em um eventual governo Dilma, que o auxílio reclusão tinha sido inventado pelo governo Lula, que todas as famílias de presos recebiam auxílio reclusão. Também circulou na Internet que Dilma seria ateia e favorável à legalização do aborto, o que pode ser verdade, mas o que também revela quem são alguns dos ferrenhos opositores de Dilma. E que pena que ela não assume essas coisas. Seria tão bom se fosse verdade! Outro tema muito defendido pelos boateiros foi a suposta "ligação do PT com as Farc". A verdade é que as Farc já não fazem mais parte do Foro de São Paulo desde 2002. Também já se insinuou que pessoas importantes do PT teriam mandado matar o prefeito de Campinas, o Toninho, em 2001. Fato: a Polícia Civil de São Paulo, um estado que nunca foi governado pelo PT, matou todos os suspeitos logo depois do crime, e isto ajudou a melar a investigação. E mereceria um capítulo a parte todo o besteirol difundido sobre o Bolsa Família.
Estes boatos mencionados no parágrafo anterior não dependem da grande mídia. Há pessoas que difundem espontaneamente pela Internet. Não apenas aqueles que acreditam fazem isso, mas também aqueles que querem acreditar, que querem que os outros acreditem. Aliás, não dependem nem da Internet. Em 1989, quando ainda não havia uso residencial de Internet no Brasil, circulou o boato de que se Lula fosse eleito, ele obrigaria as famílias com casa a abrigar um morador de rua.
Além dos boateiros amadores, a mídia profissional também exerce o seu papel de fazer apenas quem já odeia o PT odiar mais ainda, mas fazer com que pessoas que já tiveram simpatia pelo PT, estão na dúvida, desconfiem do antipetismo. A partidarização é explícita. Como eu disse em um post anterior, não é a grande mídia que é a favor do PSDB, mas o PSDB que é a favor do partido da grande mídia. Quando na parte de editorial e na parte de opinião dos jornalões só se encontram opiniões semelhantes àquelas proferidas por lideranças do PSDB, é natural que se desconfie do conteúdo da parte de notícias destes jornais.
Um exemplo foi visto durante e logo após à campanha eleitoral, quando tanto colunistas de jornal, quanto políticos do PSDB reclamaram que a campanha do PT fazia o uso do "nós e eles". Trata-se de uma grande hipocrisia porque a campanha do PSDB também utiliza o "nós e eles". Dentre os muitos defeitos do PT, o "nós e eles" não faz parte, uma vez que o "nós e eles" é uma prática necessária na democracia. A repetição da crítica ao "nós e eles" nos jornais e nos programas do PSDB mostra o claro alinhamento partidário dos meios de comunicação. Outro evidência de claro alinhamento partidário ocorreu quando jornais e revistas mostraram indignação contra a campanha porca da Dilma contra Marina e Aécio, que foi porca mesmo, mas em 2010 esta indignação não apareceu quando Serra fez uma campanha porca contra Dilma, recorrendo até à ateufobia. Pelo menos, fora isso, em 2014, a grande mídia, com exceção das revistas semanais, não fez boca de urna para o candidato do PSDB igual fez em 2006 e em 2010. Talvez porque considerou que não fosse conveniente o Aécio ganhar, dadas as medidas que teriam que ser tomadas em 2015 por qualquer governo.
Em 2010, ficou muito evidente o lado que a grande mídia escolheu. Isto se viu na maneira através da qual foi abordado o dossiê que petistas tinham contra pessoas próximas do José Serra. Houve superexploração de apenas um dos lados da história: o de como o dossiê foi feito. E silêncio sobre o outro lado: o que tinha no dossiê. Foi alimentada paranoia do tipo "the big brother is watching you". Alguns colunistas tentaram insinuar que o governo estaria mandando a Receita Federal vazar os dados do imposto de renda das pessoas citadas no dossiê. Isto seria completamente desnecessário, porque seria perfeitamente possível algum concursado da Receita ter vazado. Como o povo não é bobo, durante o período em que o assunto dossiê dominou a mídia, a intenção de voto de José Serra oscilou para baixo, e não para cima. Sinal de que pessoas comuns já estavam percebendo que algo havia de estranho. No ano seguinte, foi revelado que o então ministro da Casa Civil Antônio Palocci tinha uma fortuna não explicada. Essa revelação foi feita coincidentemente logo depois do prazo de entrega das declarações do Imposto de Renda. E ninguém da grande mídia manifestou desconfiança sobre possível vazamento.
Toda a campanha olavística pró-Serra na Internet e na imprensa em 2010 encobriu uma coisa que eu inclusive não percebi naquele tempo: Dilma Rousseff era inexperiente na política, sua capacidade de liderança era fraca, como foi demonstrado posteriormente, e José Serra, com sua biografia, sua passagem pelo Ministério da Saúde, e se não fosse a forte guinada para a direita que deu quando foi prefeito e governador e principalmente quando foi candidato a presidente, poderia perfeitamente ser um bom sucessor do Lula, mais continuador do que rompedor.
Uma prática canalha do antipetismo, presente principalmente na Veja, é considerar que todos os adversários do PT quando são acusados são vítimas de perseguição ou que só por ser adversário do PT, um político que fez coisa errada deve ser perdoado. A Veja, que elogiava o ex-senador DEMóstenes, já chegou a dizer na capa que a CPI do Cachoeira era cortina de fumaça para acobertar o julgamento do mensalão. A mesma revista também teve textos elogiosos ao Eduardo Cunha.
O caso do Daniel Dantas mostrou muito bem o jogo político da grande mídia, que conta ainda com aliados no meio político e no judiciário. Daniel Dantas provavelmente colocou dinheiro no mensalão do PT. Mas o banqueiro baiano começou sua carreira sendo muito próximo de Antônio Carlos Magalhães, do PFL, atual DEM. Foi favorecido na privatização das empresas de telefonia durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Sua irmã já teve empresa junto com a filha de José Serra. Coincidentemente, foi Gilmar Mendes, o ministro do STF indicado pelo FHC e que atua de forma partidária, que quis melar a operação da Política Federal contra Daniel Dantas. Colunistas pró PSDB demonizaram o delegado Protógenes e a Satiagraha. Tinha muitos defeitos na Satiagraha? Sim. Protógenes fez merda? Sim. Mas Daniel Dantas tem condições de pagar bons advogados. E juristas são melhores para fazer críticas a Satiagraha do que colunistas partidários. Principalmente quando estes colunistas são simpatizantes aos partidos dos quais Dantas era mais próximo. O comportamento da grande mídia, naquele momento, foi atípico. O costume foi sempre o de se posicionar do lado do acusador, de tratar delegados como heróis e políticos como safados. Este costume foi quebrado na Satiagraha. Paralelo pode ser feito com alguns blogueiros petistas, que antes de 2012 nunca tinham escrito sobre Direito Penal, e depois da AP 470, passaram a ser os maiores especialistas no assunto.
O dois pesos duas medidas da grande mídia é muito marcante. Quando Fernando Henrique Cardoso colocou dois aliados políticos no STF como Nelson Jobim e Gilmar Mendes, isto passou batido. Quando Lula fazia isso...
Dois acontecimentos próximos um do outro em 2007 mostram como uma mentira pode desacreditar uma verdade. Em julho daquele ano, um Airbus da TAM não conseguiu frear na pista de Congonhas, bateu em um prédio, e morreram todos os passageiros e mais algumas pessoas da rua. As televisões, os jornais e as revistas imediatamente falaram que o acidente ocorreu porque a pista estava escorregadia. Desta forma, essa possível culpar a Infraero, e por extensão, o governo Lula. Depois, verificou-se que não foi a pista escorregadia que causou o acidente. Poucos dias depois do acidente, boxeadores cubanos do Pan sumiram por um tempo, passaram pela delegacia, e depois voltaram para Cuba. Foi insinuado que eles teriam sido deportados. No momento, eu pensei que fosse mais uma mentira. Mas parece que eles foram deportados mesmo.
E por fim, mais um motivo que faz algumas pessoas que por muito tempo se simpatizaram com o PT terem desconfiança com o antipetismo. Nem todos os que odeiam o PT são elitistas, racistas, machistas e homofóbicos. Principalmente agora, quando há muitos motivos justos para odiar o PT. Mas mesmo antes de 2002, também havia pessoas boas que odiavam o PT. Agora, é fato que todos os que são elitistas, racistas, machistas e homofóbicos odeiam e sempre odiaram o PT. E a rejeição ao PT virou pretexto para colunistas/comediantes mau caráter ganharem aplausos de elitistas, racistas, machistas e homofóbicos.
E antes de terminar, eu apresentei um lado neste texto, mas o outro também é válido. É possível, como argumentei até aqui, que mau caratismos que se aproveitam do antipetismo façam algumas pessoas a desconfiarem do discurso anti-PT mesmo quando este discurso é justo. Por outro lado, as tantas merdas que o PT fez pode ter feito com que outras pessoas tenham dificuldade de perceber que tem muito pilantra se aproveitando do discurso anti-PT.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Curiosidades cronológicas

Coisas estranhas nas quais paramos para pensar quando olhamos a linha do tempo da história da humanidade


Nelson Piquet e Michael Schumacher já correram juntos. Foram companheiros na Benetton no Mundial de Fórmula Um de 1991. O brasileiro teve desempenho em pontos levemente melhor do que o alemão no período. Michael Schumacher já dividiu a pista com Fernando Alonso. Nelson Piquet já dividiu a pista com Emerson Fittipaldi. Então, entre Fernando Alonso e Emerson Fittipaldi, há apenas três ligações.

Já houve um pequeno período em que tanto Zico, quanto Ronaldo Fenômeno, eram simultaneamente jogadores profissionais. Foi em 1993. Zico jogava no Kashima Antlers, Ronaldo jogava no Cruzeiro.

O Galvão Bueno narrou todos os jogos do Brasil entre as Copas do Mundo de 1990 e 2014. O tempo entre 1990 e 2014 é equivalente ao tempo entre 1966 e 1990. A Copa de 1966 foi a última sem transmissão de televisão ao vivo no Brasil.

A primeira Copa da qual tenho vaga lembrança é a de 1990. A primeira que acompanhei de verdade foi a de 1994. A de 1998 foi a última em que todos os jogadores eram mais velhos do que eu. Em 2002, já tinha um ou outro jogador mais novo do que eu. Em 2006, ainda os jogadores mais velhos do que eu eram maioria. Em 2010, muito provavelmente era meio a meio os mais velhos e os mais novos. Em 2014, os jogadores mais novos do que eu foram a maioria. Em 2018, vai haver apenas um ou outro jogador mais velho do que eu. A de 2022 será a primeira Copa em que todos os jogadores serão mais novos do que eu.

Desde quando foi fundada a Quinta República Francesa, foram eleitos presidentes socialistas apenas três vezes: em 1981, em 1988 e em 2012. Nestes três anos, o Guarani chegou a final de alguma coisa. Em 1981 na Taça de Prata, e em 1988 e 2012 no Campeonato Paulista.

U2 é conhecida como banda dos anos 80. Pearl Jam é conhecida como banda dos anos 90. Apesar de décadas diferentes, Bono Vox é apenas quatro anos mais velho do que Eddie Vedder.

O show mais importante realizado no Morumbi em 1993 foi do Nirvana. O show mais importante realizado no Morumbi em 2007 foi do Roger Waters. O show mais importante realizado no Morumbi em 2010 foi do Paul McCartney. Em 1993, Paul McCartney e Roger Waters já eram vistos como tiozões.

Já houve um pequeno período em que simultaneamente os generais Franco e Pinochet eram ditadores em seus respectivos países. Foi entre 11 de setembro de 1973, quando ocorreu o golpe no Chile, e 20 de novembro de 1975, quando Franco faleceu. Pinochet foi um dos poucos governantes a comparecer ao enterro de Franco. Em poucas palavras: por dois anos, o general ditador amigo de Adolf Hitler foi contemporâneo do general ditador amigo de Margaret Thatcher.

O pintor espanhol Pablo Picasso foi citado no filme Titanic, que contava uma história ocorrida em 1912. A elite preconceituosa da primeira classe do navio desprezava suas obras. Picasso faleceu em 1973.

Adolf Hitler foi chanceler da Alemanha entre 1933 e 1945. Konrad Adenauer foi chanceler da Alemanha entre 1949 e 1963. Apesar de ter sido sucessor, Konrad Adenauer (nascido em 1876) era mais velho do que Adolf Hitler (nascido em 1889). Adenauer já era político importante antes de 1933. Foi prefeito de Colônia e teve de deixar o cargo nessa data.

Em 6 de novembro de 1933, ocorreu a última eleição parlamentar da Alemanha da República de Weimar. O Partido Nacional Socialista obteve mais de 30% do Parlamento. Dois dias depois, houve eleição presidencial nos EUA e Franklin Roosevelt foi eleito pela primeira vez. Estas eleições que ocorreram em um intervalo de apenas dois dias (há muito tempo eleição na Alemanha ocorre em um domingo e nos EUA em uma terça-feira) mudaram o mundo nos 12 anos seguintes. Em 1 de dezembro, o governo alemão do chanceler Von Pappen terminou, e foi formado um novo governo liderado por Schleicher. Em 30 de janeiro de 1933, terminou o breve governo Schleicher, e Adolf Hitler assumiu o poder. Em 4 de março, Franklin Roosevelt tomou posse como presidente dos EUA (naquele tempo, a posse era mais tarde). Ou seja, na Alemanha teve um governo mais curto do que o período de pato manco do presidente norte-americano Herbert Hoover.

Ronald Reagan nasceu em 1911. Richard Nixon nasceu em 1913. John Kennnedy nasceu em 1917. A ordem em que foram presidentes dos EUA foi ao contrário. Kennedy foi eleito em 1960, Nixon em 1968 e Reagan em 1980.

Quando o PT tomou posse pela primeira vez na prefeitura de São Paulo, com Luiza Erundina, em 1 de janeiro de 1989, ainda existia bloco comunista. Mas, óbvio, São Paulo não entrou neste bloco.

Atualmente, alguns que comentam a eleição presidencial brasileira de 1989, dizem que o PT era inexperiente, que o PT era radical, que o PT era como se fosse o PSOL de hoje. Estes alguns talvez não se lembrem que durante aquela campanha eleitoral, o PT já governava a maior cidade do Brasil.

Dilma Rousseff e Fernando Haddad são conhecidos como "postes do Lula". Ambos nunca disputaram eleição antes de virarem ministros de Lula (Casa Civil, Educação respectivamente), aí com apoio de Lula, uma o sucedeu, o outro foi eleito prefeito de São Paulo. O que talvez não muitos lembram é que Haddad já foi ministro da Dilma. Ele permaneceu no Ministério da Educação em 2011, e só saiu em janeiro de 2012 para disputar a Prefeitura de São Paulo.

Durante a campanha presidencial brasileira de 1989, Luís Carlos Prestes, que fez aquela coluna na década de 1920, ainda estava vivo. Apoiou Brizola no primeiro turno e Lula no segundo.

O bebê que a Olga Benario teve em uma prisão na Alemanha em 1936 viu a pré-estreia do filme biografia de sua mãe em 2004.

John Maynard Keynes nasceu no ano em que Karl Marx morreu, 1883. Essa é manjada. O que menos gente sabe é que John Maynard Keynes faleceu antes de seu pai e sua mãe, em 1946.

Muita gente na esquerda pergunta o que Karl Marx pensaria do regime soviético. Marx morreu 34 anos antes da Revolução Russa. O socialista alemão Karl Kautsky, que chegou a conviver com Marx, morreu em 1938. Ele não tinha visão favorável ao regime do Stálin.

Temos o hábito de associar pirâmides e Cleópatra com Egito Antigo. Porém, o intervalo entre o Egito das pirâmides e o Egito da Cleópatra é mais longo do que o intervalo entre o Egito da Cleópatra e o Egito da Primavera Árabe.

Já se passaram mais anos entre o atentado de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center e ao Pentágono do que entre a queda do muro de Berlim e o atentado.

Menos anos se passaram entre o 14 bis do Santos Dummont (1906) e o lançamento do Boeing 707 (1958), que já é muito parecido com os aviões comerciais atuais, do que entre o lançamento do Boeing 707 e a atualidade.

Em 1995, foi lançado o Windows 95 (dããã). Vinte anos atrás. Não é muito diferente dos Windows usados atualmente. Vinte anos antes de 1995, ou seja, 1975, foi lançado o primeiro Apple. Era a Idade da Pedra da microinformática.

O homem chegou à lua pela primeira vez em 1969. No mesmo ano em que surgiu a Arpanet, ancestral da Internet. Naquele tempo, viagens espaciais eram sinônimo de futuro, e pouca gente ligava para o que iria ocorrer com a informática.

Em 1994 foi lançado o segundo modelo do Gol, vulgarmente conhecido como o Gol Bola. Os carros populares atuais têm design parecido. Vinte e um ano antes de 1994, ou seja, 1973, os carros populares eram bem diferentes.

As opções de vestuário que homens e mulheres têm em 2015 não são muito diferentes das de 40 anos atrás, ou seja, de 1975. Em 1935, as roupas masculinas e femininas eram bem diferentes das de 1975 e muito mais padronizadas.

O 2001: Uma Odisseia no Espaço é de 1968. 47 anos antes da atualidade. 47 anos antes de 1968 foi 1921. Quando só tinha filme preto e branco, e mudo.

Quando (nós homens) começamos a reparar nas atrizes gostosas dos filmes, na nossa pré-adolescência, algumas dessas atrizes têm quase a idade de nossas mães. Depois, passam a ter a nossa idade. Depois, passam a ter a idade de nossas filhas. Depois, passam a ter a idade de nossas netas. E se nós cuidarmos bem da nossa saúde, passam a ter a idade de nossas bisnetas.

A última vez em que houve uma execução legal por guilhotina na França (segundo semestre de 1977) ocorreu depois do lançamento do primeiro Star Wars, o IV, nos cinemas (primeiro semestre de 1977).

Nos EUA, há execuções legais até os dias atuais. Sempre ao lado na maca onde vai ser aplicada a injeção letal, há um telefone para que o governador tenha possibilidade de ligar até o último minuto para mandar suspender a execução. A última execução legal no Brasil ocorreu em 1876, o ano em que o telefone foi inventado. Certamente não havia um recém inventado telefone no meio no mato onde foi colocada a forca.

domingo, 4 de outubro de 2015

Sobre a partidarização da TV Cultura

A TV Cultura, que pega não só em São Paulo mas também em todo Brasil, já foi sinônimo de TV pública de qualidade. Não é mais. O PSDB de São Paulo fez algo que nem a ditadura militar fez: transformou a TV Cultura em um veículo de propaganda ideológica do partido do governo estadual de São Paulo. Dessa forma, a TV Cultura virou uma Fox News tupiniquim. As maiores estrelas passaram a ser Luís Felipe Pondé e Marco Antônio Villa. O Roda Viva passou a ter quase sempre convites de acordo com interesses políticos. A bancada de entrevistadores, com muitos elementos da Veja, passou a ser especialista em levantar a bola para o convidado politicamente selecionado cortar. A banca que entrevistou o Gilmar Mendes há alguns anos, por exemplo, tinha Reinaldo Azevedo e Eliane Castanhede.

O limite do cérebro humano causando o limite da ciência econômica

Uma das dificuldades que a ciência econômica tem é o limite de capacidade armazenamento do cérebro humano, assim como o limite da capacidade de entrada de novas informações por hora.
Assim, quem deseja dominar o conhecimento de fronteira da ciência econômica tem que ser meio ignorante em outras ciências sociais. Entender o que é produzido atualmente exige horas de leituras de artigos, com muitos modelos cheios de letras gregas. Não sobra tempo para outras leituras. Ainda por ...cima, é necessário se especializar em um ramo da economia (micro, macro, internacional, trabalho, setor público etc) para entendê-lo muito bem.
Por outro lado, quem deseja ser multidisciplinar, conhecer todos os ramos da economia, conhecer todas as obras clássicas do pensamento econômico (Riqueza das Nações, Capital, Teoria Geral, Capitalismo Socialimo e Democracia etc), entender das outras ciências sociais, entender de Filosofia, dificilmente vai conseguir se atualizar sobre o conhecimento de ponta das ciências econômicas dos últimos dez anos.
Pode ter um gênio ou outro com capacidade de entender de tudo. Mas o que muitos economistas fazem é o "ciclo de vida": se atualizam no conhecimento de fronteira até os 40 anos de idade, e viram multidisciplinares depois disso.
A engenharia de computação desenvolvem computadores com capacidade cada vez maior de armazenamento. Se a engenharia genética fizesse isso com cérebros, poderia haver supereconomistas.


enfiada no cu enfiada no cu enfiada no cu

sábado, 3 de outubro de 2015

Havia alternativa à política macroeconômica Palocci Levy Meirelles do primeiro mandato do Lula?


Os principais nomes da condução da política macroeconômica do primeiro mandato de Lula eram o Ministro da Fazenda Antônio Palocci, seu secretário do Tesouro Joaquim Levy e o presidente do Banco Central Henrique Meirelles. Eles conduziram uma política mais criticada pela esquerda do que pela direita. Criticada não apenas pelo então recém criado PSOL, como também por integrantes do próprio PT e organizações da sociedade civil vinculadas ao PT. As ideias que nortearam esta política voltaram ao governo com o retorno de Joaquim Levy ao governo, agora como Ministro. Por isso esta discussão é importante. Então, havia alternativa à política macroeconômica do primeiro mandato do Lula?

Resposta muito simples: sim, mas a alternativa seria inevitavelmente mais antipopular do que a que foi implementada.

A política macroeconômica de Palocci/Levy/Meirelles foi a manutenção do tripé criado no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, que consistia em regime de metas de inflação, câmbio flutuante e geração de superávits primários. Quando Lula assumiu em janeiro de 2003, a inflação anual estava em 12%. O dólar estava valendo quase quatro reais. Quem falar que esses eventos que ocorreram antes do Lula ser presidente ocorreram por culpa do Lula leva tabefe.

Logo no início de seu primeiro mandato, a equipe econômica de Lula fez um ajuste fiscal mais duro do que o atual. O superávit primário superou os 3% do PIB nos quatro anos de mandato e foi superior ao do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. A taxa Selic foi mantida alta, no patamar de 26%, até a inflação começar a ceder. As reduções posteriores foram modestas. Os generosos aumentos reais do salário mínimo só começaram em 2005. Em 2003 e 2004, houve apenas reposição da inflação. O mesmo ocorreu com os salários do funcionalismo público.

E quais foram os resultados? A inflação caiu a ponto de chegar aos 3% em 2006, abaixo do centro da meta. O dólar chegou a R$2,10 em 2006 e continuou caindo posteriormente, até chegar a aproximadamente R$1,60 em meados de 2008.

A relação dívida líquida/PIB caiu de 50% quando Lula tomou posse pela primeira vez para 45% quando Lula foi reeleito, e continuou caindo depois. O PIB cresceu a uma média anual de 3,5% no primeiro mandato de Lula, média superior a dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, mas bem inferior à média dos países emergentes entre 2003 e 2006. No segundo mandato de Lula, o PIB cresceu a uma média anual de 4,5%. A parcela dos brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza era de 33% quando Lula tomou posse pela primeira vez, 25% quando Lula foi reeleito, e continuou caindo. O coeficiente de Gini passou de 0,59 para 0,55, e continuou caindo posteriormente. A participação da indústria de transformação no PIB no primeiro mandato de Lula caiu de 17% para 16,5% e continuou caindo depois. As exportações dobraram no primeiro mandato de Lula. A participação dos manufaturados se manteve constante no primeiro mandato e passou a cair no segundo.

Como foi dito logo na abertura do texto, a política econômica do primeiro mandato de Lula poderia ter sido diferente. A queda da taxa Selic poderia ter sido mais rápida, a valorização real do real poderia ter sido menor. Se isto tivesse ocorrido, a situação da indústria de transformação poderia ter sido melhor, e a relação indústria de transformação / PIB poderia ter subido, ao invés de ter caído. Como a indústria de transformação difunde aumentos de produtividade para outros setores da economia, a taxa de crescimento do PIB poderia ter sido maior. Porém, e este porém é muito importante, para ter reduzido mais a taxa Selic e para ter evitado uma supervalorização real do real, era necessário ter feito um superávit primário ainda maior do que o que foi feito, e ter concedido aumentos menos generosos de salário mínimo e salário do funcionalismo público. Em poucas palavras: se o governo, em nome do apoio à indústria, resolvesse abrir mão da política monetária e da política cambial para controlar a inflação, teria que utilizar de forma mais intensa a política fiscal e a política salarial para este objetivo. Fazendo isso, o PIB poderia ter crescido a taxas mais elevadas, mas a queda da desigualdade poderia ter sido mais lenta, uma vez que o salário mínimo e os gastos com o social, que ficariam menores, ajudam a reduzir a desigualdade.

Como era de se esperar, esta política macroeconômica foi criticada por economistas keynesianos desenvolvimentistas não esquerdistas como Bresser Pereira, José Oreiro, Delfim Netto e José Serra. Eles falaram que a supervalorização real do real estava provocando a desindustrialização da economia brasileiro. Defenderam maior superávit primário para evitar a supervalorização e para poder reduzir mais os juros.

Estranha foi a maneira através da qual esta política macroeconômica foi criticada pela esquerda. Se é de esquerda, por que defender que a política macroeconômica deveria ter focado mais o crescimento e menos a redistribuição? A solução foi fazer de conta que alguns dilemas não existem e propor soluções não realistas. As críticas pela esquerda também apontaram para a desindustrialização e para os juros altos, mas ao contrário dos keynesianos desenvolvimentistas não esquerdistas, os esquerdistas defenderam também um superávit primário menor, ou seja, mais gastos públicos, e aumentos ainda maiores de salário mínimo. O que eles fizeram foi basicamente sugerir ligar o ar condicionado e o aquecedor ao mesmo tempo. Salários maiores neutralizariam o efeito de um câmbio mais favorável, e a desindustrialização ocorreria de qualquer maneira. Real desvalorizado, salários crescentes, gastos públicos elevados e juros baixos produziriam uma tremenda inflação. O que os críticos esquerdistas da política econômica do primeiro mandato do Lula sugeriram foram parcialmente aplicados no primeiro mandato da Dilma, e os resultados ficaram aquém do esperado por eles. 

 

Esta mistura de industrialismo com Estado Social defendida por parte da esquerda ocorre por causa da influência que o pensamento da Cepal dos anos 1950 ainda exerce. Os cepalinos consideravam que uma melhor distribuição de renda favoreceria a industrialização da América Latina porque o aumento da população com poder aquisitivo favoreceria a implantação da grande indústria, que poderia aproveitar economias de escala. O problema é que o mundo atual não é igual ao da década de 1950. A inclusão da Ásia no comércio mundial mudou tudo. Atualmente, para ter manufatura é necessário ter trabalho barato. Alguns perguntariam: mas e a Alemanha? Lá os trabalhadores recebem bons salários, mas como a produtividade deles é alta, o custo do trabalho não é alto. E as indústrias da Alemanha são mais intensivas em tecnologia, e não em trabalho. E mesmo assim, o que tornou possível a reindustrialização da Alemanha na década de 2000 foi uma política deliberada de redução de salários.

A escolha de Lula e sua equipe de não priorizar a indústria de transformação foi acertada? É uma pergunta difícil de responder. A razão indústria de transformação / PIB, que já foi de 35% no seu auge em 1985, encontra-se atualmente próxima dos 10%. Perda de participação da indústria de transformação no PIB é um fenômeno que ocorre em todos os países que se desenvolvem ao longo do tempo. A curva que mostra a relação entre PIB per capita e indústria de transformação/PIB tende a ter o formato de uma montanha. Sobe no início quando a sociedade de torna menos agrícola e mais industrial e desce posteriormente quando a sociedade se torna menos industrial e mais voltada para os serviços (sim, eu sei que "serviços" é um termo muito simplista e amplo, mas não prejudica o argumento). E mesmo o desenvolvimento não impossibilita que um país seja um grande exportador de produtos primários. Japão, Alemanha e Coreia do Sul são países muito desenvolvidos e exportadores de manufaturas. Canadá, Dinamarca, Noruega, Austrália e Nova Zelândia também são países muitos desenvolvidos e são grandes exportadores de produtos primários. Se o Brasil um dia for Primeiro Mundo (será?), provavelmente será mais parecido com Canadá, Dinamarca, Noruega, Austrália e Nova Zelândia do que com Japão, Alemanha e Coreia do Sul. Por outro lado, é possível dizer que a desindustrialização relativa (indústria perde participação no PIB, mas não cai em absoluto), embora normal, foi prematura no Brasil. O topo da montanha da razão indústria de transformação/PIB foi atingido em um patamar ainda baixo de PIB per capita, se for feita comparação com o que ocorreu em outros países. Desde a década de 1990, ainda no tempo dos Fernandos, quando a economia brasileira foi se tornando menos industrial e mais de serviços, diferente do que ocorreu em outros países que passaram por este fenômeno, aqui, os serviços que mais cresceram não foram os típicos de países mais avançados.

Se era melhor ter sido mais popular ou mais industrialista, difícil saber. A única certeza que existe é a de que é impossível ser mais popular e mais industrialista ao mesmo tempo. Conforme dito anteriormente, isto é querer ligar o ar condicionado e o aquecedor ao mesmo tempo.

Uma política que visasse deliberadamente produzir uma taxa de câmbio favorável à indústria de transformação seria uma política desenvolvimentista. Os exemplos mais conhecidos de políticas desenvolvimentistas foram aquelas praticadas por Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura e também pelo Brasil entre 1930 e 1980. Em todos estes exemplos, os governos que praticaram tais políticas NÃO foram trabalhistas social democratas populares voltados para o povão.

Como o Brasil teve entre 1930 e 1980 uma política que favoreceu rápida industrialização, elevadas taxas de crescimento do PIB, mas também elevada concentração de renda e ganhos mais modestos nos indicadores sociais, e entre 1980 e 2002 houve nem crescimento, nem redução de desigualdade, foi compreensível o primeiro governo eleito por forças de esquerda depois de 38 anos ter dado prioridade ao social em relação à indústria.

O PSOL fez seu papel de oposição em criticar a política econômica. Estranho foi o próprio PT ter batido nesta política. Enquanto o PSOL se opunha ao governo como um todo, o PT era governo e criticava a política econômica, tratando esta política econômica como parte não integrante do governo, como um alien. Talvez isso fosse compreensível do ponto de vista político. Se esta política não tivesse sido bem sucedida, a crítica a esta política serviria como uma apólice de seguro ao PT. Mas o problema é que esta política foi bem sucedida. Realmente, o PIB brasileiro cresceu menos em 2006 do que a média dos países emergentes. Mas é preciso lembrar que Rússia e Venezuela tiveram crescimento mais alto durante o mesmo período porque estavam saindo de depressão e estavam sendo beneficiadas por preço do petróleo crescente. A Argentina também estava saindo de depressão. China e Índia ainda tinham PIB per capita baixo, e é natural que PIB de países assim cresça mais. Até 2006, achava-se que o PIB brasileiro tinha crescido menos do que cresceu de fato. Foi descoberto em 2007 que o PIB brasileiro tinha crescido mais, quando o IBGE revisou os dados. A política econômica do primeiro mandato de Lula permitiu reduzir a inflação de 12% para 3% (até exagerou, se fosse 4,5% já estava bom), o que possibilitou reduzir os juros posteriormente, fazer o PIB crescer bastante em 2007, 2008 e 2010, aumentar o gasto social e diminuir a miséria. Recusar a autoria de uma política macroeconômica de seu próprio governo que deu certo foi uma estratégia burra para o PT. Perdeu a possibilidade de ganhar o lugar de fala como responsável na gestão das finanças públicas. Mesmo pessoas que gostam do PT por considerar um partido sensível com o social não confiam no PT como um partido responsável pela prudência na gestão das finanças públicas. Este lugar de fala ficou injustamente com o PSDB, mesmo com a gestão nada responsável durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Mesmo algumas pessoas que consideram o PSDB elitista acham que o PSDB “tem um lado bom” que seria a responsabilidade na gestão das finanças públicas. Dizem os peessedebistas mais lambe saco que no primeiro mandato, Lula seguiu a política macroeconômica do PSDB. Como se superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação tivessem propriedade intelectual.

É irônico notar que embora os simpatizantes de Guido Mantega sejam os mais entusiastas defensores do real desvalorizado, foi durante as duas eras Joaquim Levy (entre janeiro de 2003 e março de 2006, e a partir de janeiro de 2015) dentro de governo do PT que o real esteve mais desvalorizado. A maior supervalorização real do real ocorreu durante a era Mantega (entre abril de 2006 e dezembro de 2014), que não por coincidência foi a era em que era pregado menos rigor na política fiscal.

É injusto, porém, culpar Guido Mantega pela atual crise econômica. Dizer que a política econômica do Brasil só foi bem conduzida até março de 2006 (alguns chegam a dizer dezembro de 2002) é puro mimimi ideológico. Houve grandes superávits primários até 2008, a política anticíclica de 2009 foi necessária e ajudou a diminuir o efeito da crise internacional no Brasil. Não dá para atribuir apenas ao Pedro Malan e ao Antônio Palocci o mérito pela conquista do investment grade em 2008. Guido Mantega já estava na cadeira de ministro há dois anos quando isto ocorreu.

O desarranjo só começou no ano eleitoral de 2010. Ainda havia tempo de Dilma corrigir isso em 2011. Um ajuste naquele ano poderia ter sido bem menos doloroso do que em 2015. Ela até ensaiou um ajuste em 2011, mas depois deixou pra lá. As maiores trapalhadas na condução da política econômica ocorreram entre o segundo semestre de 2011 e 2014.

 

Observações

1)     Embora eu tenha criticado neste texto aqueles que defendem a redução dos juros na marretada, e que durante um determinado momento os juros altos no Brasil foram necessários sim para reduzir a inflação, eu reconheço que mesmo quando não é necessário, vai haver lobistas do setor financeiro pregando terror com inflação e defendendo os juros altos. O Paul Krugman vem mostrando muito bem como isto vem ocorrendo nos Estados Unidos, em que a taxa básica de juros está próxima de zero, não há risco de inflação, mas há os lobistas que estão sempre vendo este risco onde não tem visando elevar os juros.

2)     Não usei as palavras ortodoxia e heterodoxia neste texto. São palavras relacionadas à academia e não à política, portanto, não cabem na discussão deste texto. Não é visão sobre política fiscal e monetária que diferencia ortodoxo de heterodoxo. É o jeito de fazer ciência: ortodoxos são dedutivos, heterodoxos são indutivos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015