Dawkins pisou na bola duas vezes recentemente. Uma quando ele disse que mulheres grávidas de feto com Síndrome de Down DEVEM abortar. Outra quando ele fez acusações sobre o menino de família muçulmana preso nos Estados Unidos por causa de um relógio. A imagem do biólogo ficou prejudicada por causa destes dois acontecimentos.
Mas não é por isso que se pode desprezar toda sua vida e sua obra. Ele não só é reconhecido no meio científico como um grande zoólogo, como ele escreveu ótimas obras de divulgação da Teoria da Evolução para o público leigo, como "O Relojoeiro Cego" e "O Maior Espetáculo da Terra".
Porém, o livro que tornou-o mais conhecido no mundo foi "Deus, um delírio", em que ele pratica o ateísmo militante. Há ateus que dizem "sou ateu, mas o Dawkins me envergonha, parece um pastor de sinal trocado". Não penso assim. Se há líderes religiosos e mesmo familiares tentando convencer que Deus existe, por que alguém não poderia fazer o oposto? As pessoas seriam expostas a ideias diferentes e poderiam ter discernimento para avalia-las. Os ateus que dizem "sou ateu, mas não gosto do Dawkins" provavelmente vivem em ambientes tolerantes ao ateísmo. Figuras como Dawkins são necessárias, porém, porque há ateus que vivem em ambientes intolerantes, esses ateus precisam ser protegidos. Por isso, o ateísmo militante não é futilidade.
Eu gostei da maneira através da qual Dawkins argumentou contra a existência de Deus. Usou o argumento favorito dos anti-evolucionistas de que "nada complexo surge por acaso", mostrou que evolução não é acaso e que Deus sim seria algo complexo que teria surgido por acaso, ou seja, algo pouco provável.
Outras argumentações interessantes em "Deus, um delírio" é a de que religiões não pregam necessariamente o bem, bastando ver as partes horrorosas que existem no Antigo Testamento para chegar a essa conclusão. Mesmo se as religiões só pregassem o bem, seus dogmas não teriam que ser verdadeiros só por causa disso. Em sociedades mais religiosas as pessoas não têm comportamento melhor do que em sociedades menos religiosas (comparem, por exemplo, o Norte com o Sul dos Estados Unidos). No tempo em que todas as sociedades eram mais religiosas, os valores sociais não eram melhores (no século XIX, por exemplo, escravidão, racismo e machismo eram aceitos).
Ao contrário do que foi dito por alguns críticos, o "Deus, um delírio" não prega apenas para os totalmente já convertidos. Eu me considerava apenas agnóstico quando comprei o livro. Achei interessante a crítica ao agnosticismo. Passei a me definir tranquilamente como um ateu, embora eu continue sendo agnóstico também. Não são excludentes.
Há defeitos no livro sim. Não concordo com Dawkins quando ele considera que até religiões sem fanatismo fazem mal para a Humanidade. Também achei pretensioso demais ele tentar refutar a filosofia de São Tomás de Aquino em três páginas.
De qualquer maneira, "Deus, um delírio" é um livro que vale a pena ser lido. Não é a melhor obra dele. As melhores obras dele são aquelas sobre a área de especialização dele, que é a Teoria da Evolução. Mas muitos conheceram estas outras obras porque conheceram o autor por causa do "Deus, um delírio".
Ah, e eu gosto do Dawkins também quando ele dá alfinetadas naquela esquerda que só ataca o fundamentalismo cristão, mas tolera um pouco mais o fundamentalismo islâmico.
No Brasil, com bancadas fundamentalistas fazendo tantos horrores, Dawkins precisa ser mais conhecido.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
domingo, 27 de setembro de 2015
O futuro do Brasil
Do que o Brasil precisa para ter futuro? Sabemos que desde 1980, o PIB per capita brasileiro não cresce com suas próprias pernas. De 2004 a 2011, houve um crescimentozinho impulsionado pelo boom de commodities, impulsionado pelo crescimento asiático. Muita gente deixou a condição de miséria neste período, o que é muito importante. Mas este período acabou.
Mudar de governo não parece a solução. O Brasil já teve governos diferentes neste período: Figueiredo, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma. Mudar de regime macroeconômico também não. Tivemos regimes macroeconômicos diferentes neste período, e o PIB brasileiro sempre patinou. O tripé composto por câmbio flutuante, superávits primários e regime de metas de inflação parece ser o mal menor.
Então do que o Brasil precisa? Para mim, precisa ter uma sociedade que aceite algum sacrifício do bem estar no presente para ter um futuro melhor. Alguns economistas dizem que a tendência de sobreapreciação da moeda nacional neste período matou a possibilidade de termos um crescimento acelerado. Sim, e a causa da sobreapreciação são as políticas do imediatismo.
É compreensível que haja pessoas que repudiem a defesa do sacrifício do presente por um futuro melhor. Isto porque ele foi mal utilizado. Nas décadas de 1960 e 1970, a população pobre foi obrigada pela força das armas a sacrificar o bem estar no presente para o futuro do país. Mas só esta parcela da população recebeu tal incumbência. Naquele tempo, o PIB do Brasil cresceu muito, mas a concentração de renda também. E ainda bem que houve uma explosão de lutas na década de 1980.
Mas muitos anos se passaram, e não são só as lutas que vão garantir o bem estar das próximas gerações. É bom que haja liberdade para protestar, é bom que haja protestos, pois os protestos ajudam corrigir alguns defeitos de nosso país. Mas não é só protestando que chegaremos ao IDH da Suécia. Precisamos poupar, investir, capacitar, trabalhar, inovar... Para que isso seja feito, alguns sacrifícios são necessários.
Quem primeiro precisa dar sua cota são os deputados e senadores. Seus salários e benefícios são desnecessariamente elevados. Não é fácil de entender porque eles ganham mais do que R$20.000. O salário deles poderia ficar alguns anos sem ser corrigidos pela inflação, para que se pudesse diminuir o valor real. Com o topo ganhando menos, diminuem as pressões dos demais servidores públicos. Estes, por sua vez, devemos entender que não temos e nem devemos ter direito a ter salário indexado por algum índice de preços. Não é aceitável ficar mais de três anos sem reajuste, seria bom ter reajuste com frequência. Mas o governo não pode ser obrigado a dar reajuste anual com base em índice de preços, porque quando há perda de receita, diminuir o valor real dos salários dos servidores através da inflação é inevitável, uma vez que servidores não podem ser demitidos com finalidade de cortar custos. Temos também que acabar com o hábito de bancar a criança chorona porque o irmãozinho recebeu mais da mãe. Esse hábito da categoria A entrar em greve porque teve aumento menor do que o da categoria B. Não é bonito ver gente que ganha salários de cinco dígitos se comportando como se fosse operário de macacão azul.
Que trabalhadores, em geral, tenham liberdade de fazer greve, isto é ótimo. Mas não são as greves que vão faze-los ganhar um salário que arbitrariamente definimos como o justo. Os salários podem crescer por um curto período acima da produtividade se foi logo depois de terem crescido abaixo da produtividade. Mas os salários não podem crescer indefinitivamente mais do que a produtividade. Vamos supor que o trabalhador produza R$2.500, sendo que ele ganhe R$2.000 e a mais valia seja R$500. Pela luta política ele pode ganhar R$2.500 (desconsiderando o inconveniente de acabar os recursos para reinvestimento), mas se quiser ganhar R$3.000, só elevando a produtividade.
A classe média alta, por sua vez, deveria parar de chiar porque paga mais IPTU do que aquilo que a prefeitura utiliza de dinheiro em seus bairros. Imposto serve para que o setor público possa prover bens e serviços, mas também serve para redistribuir renda. Algo que ocorre pouco no Brasil, uma vez que a tributação sobre consumo é muito grande, e a tributação sobre renda e patrimônio é pequena.
Nosso país deveria também temporariamente parar de sonhar com vanguardismos em educação. Nossa maior deficiência está no feijão com arroz da educação, que é leitura e matemática. Sendo assim, dificilmente conseguiremos exportar muitos bens além dos primários. Produzir bens com elevado conteúdo tecnológico requer bons engenheiros, operários muito qualificados. As políticas de educação no momento atual deveriam priorizar melhorar a proficiência em leitura e matemática das crianças e adolescentes brasileiros. Atingido este patamar, poderia se pensar em formas criativas de educação. E o "descaso com a zumanas" é uma reclamação fora de lugar no Brasil. Quando se faz uma comparação com outros países, se verifica que, no Brasil, o percentual de estudantes de Humanas sobre o total de estudantes universitários é elevado. Formam-se muitos bacharéis em Ciências Sociais e em Relações Internacionais que prestam concursos públicos genéricos, que não exigem estas graduações. As vagas de humanas devem ser mantidas, nem aumentadas, nem reduzidas. Mas a prioridade dos novos investimentos em educação superior devem ser as engenharias e as ciências naturais.
Mudar de governo não parece a solução. O Brasil já teve governos diferentes neste período: Figueiredo, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma. Mudar de regime macroeconômico também não. Tivemos regimes macroeconômicos diferentes neste período, e o PIB brasileiro sempre patinou. O tripé composto por câmbio flutuante, superávits primários e regime de metas de inflação parece ser o mal menor.
Então do que o Brasil precisa? Para mim, precisa ter uma sociedade que aceite algum sacrifício do bem estar no presente para ter um futuro melhor. Alguns economistas dizem que a tendência de sobreapreciação da moeda nacional neste período matou a possibilidade de termos um crescimento acelerado. Sim, e a causa da sobreapreciação são as políticas do imediatismo.
É compreensível que haja pessoas que repudiem a defesa do sacrifício do presente por um futuro melhor. Isto porque ele foi mal utilizado. Nas décadas de 1960 e 1970, a população pobre foi obrigada pela força das armas a sacrificar o bem estar no presente para o futuro do país. Mas só esta parcela da população recebeu tal incumbência. Naquele tempo, o PIB do Brasil cresceu muito, mas a concentração de renda também. E ainda bem que houve uma explosão de lutas na década de 1980.
Mas muitos anos se passaram, e não são só as lutas que vão garantir o bem estar das próximas gerações. É bom que haja liberdade para protestar, é bom que haja protestos, pois os protestos ajudam corrigir alguns defeitos de nosso país. Mas não é só protestando que chegaremos ao IDH da Suécia. Precisamos poupar, investir, capacitar, trabalhar, inovar... Para que isso seja feito, alguns sacrifícios são necessários.
Quem primeiro precisa dar sua cota são os deputados e senadores. Seus salários e benefícios são desnecessariamente elevados. Não é fácil de entender porque eles ganham mais do que R$20.000. O salário deles poderia ficar alguns anos sem ser corrigidos pela inflação, para que se pudesse diminuir o valor real. Com o topo ganhando menos, diminuem as pressões dos demais servidores públicos. Estes, por sua vez, devemos entender que não temos e nem devemos ter direito a ter salário indexado por algum índice de preços. Não é aceitável ficar mais de três anos sem reajuste, seria bom ter reajuste com frequência. Mas o governo não pode ser obrigado a dar reajuste anual com base em índice de preços, porque quando há perda de receita, diminuir o valor real dos salários dos servidores através da inflação é inevitável, uma vez que servidores não podem ser demitidos com finalidade de cortar custos. Temos também que acabar com o hábito de bancar a criança chorona porque o irmãozinho recebeu mais da mãe. Esse hábito da categoria A entrar em greve porque teve aumento menor do que o da categoria B. Não é bonito ver gente que ganha salários de cinco dígitos se comportando como se fosse operário de macacão azul.
Que trabalhadores, em geral, tenham liberdade de fazer greve, isto é ótimo. Mas não são as greves que vão faze-los ganhar um salário que arbitrariamente definimos como o justo. Os salários podem crescer por um curto período acima da produtividade se foi logo depois de terem crescido abaixo da produtividade. Mas os salários não podem crescer indefinitivamente mais do que a produtividade. Vamos supor que o trabalhador produza R$2.500, sendo que ele ganhe R$2.000 e a mais valia seja R$500. Pela luta política ele pode ganhar R$2.500 (desconsiderando o inconveniente de acabar os recursos para reinvestimento), mas se quiser ganhar R$3.000, só elevando a produtividade.
A classe média alta, por sua vez, deveria parar de chiar porque paga mais IPTU do que aquilo que a prefeitura utiliza de dinheiro em seus bairros. Imposto serve para que o setor público possa prover bens e serviços, mas também serve para redistribuir renda. Algo que ocorre pouco no Brasil, uma vez que a tributação sobre consumo é muito grande, e a tributação sobre renda e patrimônio é pequena.
Nosso país deveria também temporariamente parar de sonhar com vanguardismos em educação. Nossa maior deficiência está no feijão com arroz da educação, que é leitura e matemática. Sendo assim, dificilmente conseguiremos exportar muitos bens além dos primários. Produzir bens com elevado conteúdo tecnológico requer bons engenheiros, operários muito qualificados. As políticas de educação no momento atual deveriam priorizar melhorar a proficiência em leitura e matemática das crianças e adolescentes brasileiros. Atingido este patamar, poderia se pensar em formas criativas de educação. E o "descaso com a zumanas" é uma reclamação fora de lugar no Brasil. Quando se faz uma comparação com outros países, se verifica que, no Brasil, o percentual de estudantes de Humanas sobre o total de estudantes universitários é elevado. Formam-se muitos bacharéis em Ciências Sociais e em Relações Internacionais que prestam concursos públicos genéricos, que não exigem estas graduações. As vagas de humanas devem ser mantidas, nem aumentadas, nem reduzidas. Mas a prioridade dos novos investimentos em educação superior devem ser as engenharias e as ciências naturais.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Os lambe saco do Eduardo Cunha e as estupradas
Sabemos que Eduardo Cunha dispõe de uns colunistas lambe saco na grande imprensa. Estes colunistas lambem o saco do Eduardo Cunha porque apoiam projetos apoiados por ele, como a permissão da terceirização em atividades fim e a permissão do financiamento de campanha por pessoas jurídicas.
Eduardo Cunha, além de tudo, é autor do PL 5069/2013, que dificulta o aborto legal para mulheres estupradas.
Os colunistas lambe saco do Eduardo Cunha muito provavelmente não apoiam o 5069, mas mesmo assim continuam lambendo o saco do presidente da Câmara por apoiar outras políticas dele. E se silenciam sobre o 5069. Afinal, para apoiar terceirização em atividades fim e financiamento de campanha por pessoas jurídicas, que em si já são coisas nefastas, vale tudo, até lamber o saco de quem quer eliminar direitos de mulheres estupradas.
Compreensível. Estes colunistas não têm buceta, nem ovários, nem úteros. Portanto, não engravidam. E as mulheres do círculo social deles que engravidarem sem querer podem fazer com mais facilidade um aborto ilegal.
Eduardo Cunha, além de tudo, é autor do PL 5069/2013, que dificulta o aborto legal para mulheres estupradas.
Os colunistas lambe saco do Eduardo Cunha muito provavelmente não apoiam o 5069, mas mesmo assim continuam lambendo o saco do presidente da Câmara por apoiar outras políticas dele. E se silenciam sobre o 5069. Afinal, para apoiar terceirização em atividades fim e financiamento de campanha por pessoas jurídicas, que em si já são coisas nefastas, vale tudo, até lamber o saco de quem quer eliminar direitos de mulheres estupradas.
Compreensível. Estes colunistas não têm buceta, nem ovários, nem úteros. Portanto, não engravidam. E as mulheres do círculo social deles que engravidarem sem querer podem fazer com mais facilidade um aborto ilegal.
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Possíveis mapas eleitorais nos Estados Unidos em 2016
Os principais concorrentes à candidatura democrata à presidente dos Estados Unidos em 2016 são Hillary Clinton, Bernie Sanders, Joe Biden e Martin O'Malley. Os principais concorrentes à candidatura republicana são Donald Trump, Ben Carson, Jeb Bush, Scott Walker, Marco Rubio, Chris Christie, Carly Fiorina e Ted Cruz.
Independente de quem seja o candidato de cada um dos grandes partidos, a disputa será em poucos estados chave. O mapa a seguir resume o resultado por estado das quatro últimas eleições presidenciais: 2000, 2004, 2008 e 2012.
Os estados em que os democratas ganharam as últimas quatro vezes, em azul escuro, somam 242 delegados. Os estados em que os republicanos ganharam as últimas quatro vezes, em vermelho escuro, somam 180 delegados. São necessários 270 para ser eleito. Os estados em cinza, em que Bush ganhou as duas vezes e Obama também (ou seja, duas pra cada partido) somam 75 delegados. Ainda tem Iowa, Novo México e New Hampshire, onde os democratas ganharam três vezes e perderam uma, e Indiana e Carolina do Norte, onde os republicanos ganharam três vezes e perderam uma.
Como os Estados Unidos estão cada vez mais polarizados, e como o voto está cada vez mais partidário e menos pessoal, espera-se mais uma eleição com pequena diferença de resultado nacional entre os dois principais candidatos, com alguns estados fortemente democratas e outros fortemente republicanos, e a disputa em alguns estados chave, a maioria deles, os pintados em cinza. Pertencem ao passado vitórias nacionais esmagadoras, como ocorreram em 1956, 1964, 1972 e 1984, e vitórias nacionais apertadas, onde a maioria dos estados apresentou resultado apertado e foi motivo de disputa, como ocorreu em 1960, 1968 e 1976.
Como a cada eleição que passa, muitos estados que votaram em Gore (democrata) em 2000 estão cada vez mais democratas, e os estados que votaram em Bush (republicano) em 2000 estão cada vez mais republicanos, considera-se que em 2016, na maioria dos estados azul escuro, a vitória democrata seja certa, e na maioria dos estados vermelho escuro, a vitória republicana é certa. Isto não depende de quais candidatos os partidos lançarão, pois conforme dito anteriormente, o voto está cada vez mais partidário. Só um grande evento inesperado tiraria a vitória de qualquer candidato democrata em Nova York, Massachusetts e Rhode Island, e só um grande evento inesperado tiraria a vitória de qualquer candidato republicano em Utah, Idahoo e Wyoming.
Há algumas exceções entre os estados marcados com azul escuro ou vermelho escuro. Gore, Kerry e Obama levaram Wisconsin e Pensylvannia nas últimas quatro eleições, mas com resultado não muito folgado. Como são estados de esmagadora maioria de população branca não hispânica, e este grupo está cada vez mais republicano, é possível que em uma vitória republicana nacional não muito apertada, o candidato republicano consiga levar estes dois estados. No melhor cenário republicano, portanto, os republicanos levam todos os estados que ganharam as últimas quatro vezes, mais todos os estados que ganharam pelo menos uma vez, mais Wisconsin e Pensylvannia. Neste cenário, os republicanos teriam 326 delegados. É quase certo que não conseguirão mais que isso. O mapa a seguir mostra este cenário.
No melhor cenário democrata possível, os democratas levam todos os estados que ganharam as últimas quatro vezes, mais todos os estados que ganharam pelo menos uma vez, mais Missouri, Georgia e Arizona, estados em que perderam as quatro últimas vezes, mas com pequena diferença em 2008. Estes estados podem mudar de lado por causa de mudanças demográficas, pois suas populações estão cada vez menos brancas. Neste cenário, os democratas teriam 395 delegados. É quase certo que não conseguirão mais que isto.
Independente de quem seja o candidato de cada um dos grandes partidos, a disputa será em poucos estados chave. O mapa a seguir resume o resultado por estado das quatro últimas eleições presidenciais: 2000, 2004, 2008 e 2012.
Os estados em que os democratas ganharam as últimas quatro vezes, em azul escuro, somam 242 delegados. Os estados em que os republicanos ganharam as últimas quatro vezes, em vermelho escuro, somam 180 delegados. São necessários 270 para ser eleito. Os estados em cinza, em que Bush ganhou as duas vezes e Obama também (ou seja, duas pra cada partido) somam 75 delegados. Ainda tem Iowa, Novo México e New Hampshire, onde os democratas ganharam três vezes e perderam uma, e Indiana e Carolina do Norte, onde os republicanos ganharam três vezes e perderam uma.
Como os Estados Unidos estão cada vez mais polarizados, e como o voto está cada vez mais partidário e menos pessoal, espera-se mais uma eleição com pequena diferença de resultado nacional entre os dois principais candidatos, com alguns estados fortemente democratas e outros fortemente republicanos, e a disputa em alguns estados chave, a maioria deles, os pintados em cinza. Pertencem ao passado vitórias nacionais esmagadoras, como ocorreram em 1956, 1964, 1972 e 1984, e vitórias nacionais apertadas, onde a maioria dos estados apresentou resultado apertado e foi motivo de disputa, como ocorreu em 1960, 1968 e 1976.
Como a cada eleição que passa, muitos estados que votaram em Gore (democrata) em 2000 estão cada vez mais democratas, e os estados que votaram em Bush (republicano) em 2000 estão cada vez mais republicanos, considera-se que em 2016, na maioria dos estados azul escuro, a vitória democrata seja certa, e na maioria dos estados vermelho escuro, a vitória republicana é certa. Isto não depende de quais candidatos os partidos lançarão, pois conforme dito anteriormente, o voto está cada vez mais partidário. Só um grande evento inesperado tiraria a vitória de qualquer candidato democrata em Nova York, Massachusetts e Rhode Island, e só um grande evento inesperado tiraria a vitória de qualquer candidato republicano em Utah, Idahoo e Wyoming.
Há algumas exceções entre os estados marcados com azul escuro ou vermelho escuro. Gore, Kerry e Obama levaram Wisconsin e Pensylvannia nas últimas quatro eleições, mas com resultado não muito folgado. Como são estados de esmagadora maioria de população branca não hispânica, e este grupo está cada vez mais republicano, é possível que em uma vitória republicana nacional não muito apertada, o candidato republicano consiga levar estes dois estados. No melhor cenário republicano, portanto, os republicanos levam todos os estados que ganharam as últimas quatro vezes, mais todos os estados que ganharam pelo menos uma vez, mais Wisconsin e Pensylvannia. Neste cenário, os republicanos teriam 326 delegados. É quase certo que não conseguirão mais que isso. O mapa a seguir mostra este cenário.
No melhor cenário democrata possível, os democratas levam todos os estados que ganharam as últimas quatro vezes, mais todos os estados que ganharam pelo menos uma vez, mais Missouri, Georgia e Arizona, estados em que perderam as quatro últimas vezes, mas com pequena diferença em 2008. Estes estados podem mudar de lado por causa de mudanças demográficas, pois suas populações estão cada vez menos brancas. Neste cenário, os democratas teriam 395 delegados. É quase certo que não conseguirão mais que isto.
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Explicação didática do keynesianismo
Ótimo texto de Paul Krugman, bem didático, explicando o keynesianismo. Ele explica em poucos tópicos o que é o keynesianismo e mostra os bonecos de palha que os adversários do keynesianismo apontam.
http://krugman.blogs.nytimes.com/2015/09/15/keynesianism-explained/?module=BlogPost-Title&version=Blog Main&contentCollection=Opinion&action=Click&pgtype=Blogs®ion=Body
Não sei se Krugman sabe, mas no Brasil, há textos em panfletos de esquerda cujos autores se comportam exatamente como os bonecos de palha que os anti-keynesianos apontam. Desserviço para o keynesianismo, desserviço para a esquerda.
http://krugman.blogs.nytimes.com/2015/09/15/keynesianism-explained/?module=BlogPost-Title&version=Blog Main&contentCollection=Opinion&action=Click&pgtype=Blogs®ion=Body
Não sei se Krugman sabe, mas no Brasil, há textos em panfletos de esquerda cujos autores se comportam exatamente como os bonecos de palha que os anti-keynesianos apontam. Desserviço para o keynesianismo, desserviço para a esquerda.
O que a aliança do PT com o PMDB em 2010 ensina
Em 2010, PT e PMDB selaram um acordo. O PMDB apoiaria Dilma e alguns candidatos a senador pelo PT, o PT apoiaria alguns candidatos a governador pelo PMDB. Os petistas ganhariam o tempo de TV do PMDB para a Dilma, um Senado mais petista em favor do futuro governo Dilma e uma base parlamentar favorável do PMDB. O PT não perderia com o não lançamento de candidatos a governador, porque abriu mão dos estados onde não teria qualquer chance. No outro lado, os peemedebistas ganhariam a vice presidência, apoio para a presidência do Senado, os 80% de aprovação de Lula em favor dos seus candidatos a governador e a possibilidade de fazer governos estaduais ao estilo PSDB sem oposição do PT.
A face mais visível deste acordo ocorreu no Rio de Janeiro. O PT apoiou Sérgio Cabral para o governo do Estado, e o PMDB apoiou Lindberg para senador. O PT exigiu pouco. Não teve nem a candidatura a vice, nem apoio para a presidência da Alerj, que é cadeira cativa do PMDB. E ao contrário do que ocorre no governo federal. Ao contrário do que ocorre a nível federal, onde o apoio do PMDB ao governo puxa o governo para a direita, a nível estadual no Rio de Janeiro, o apoio do PT não puxa o governo para a esquerda. A administração Cabral/Pezão em nada foi/é diferente das administrações do PSDB de São Paulo. O PT teve duas secretarias com pouco poder político.
Mesmo quando tinha essas duas secretarias, o PT foi irrelevante nas definições dos rumos da administração Sérgio Cabral.
Ainda assim, o PT provavelmente pensou que tinha feito um plano perfeito igual aqueles de pegar o coelhinho da Mônica. Parecia tudo simples. Dilma faria uma administração popular e não teria problema para se reeleger (hahaha). O PT ficaria com as duas boquinhas da administração Cabral, e, portanto, não bateria na administração. Seria caronista do PSOL e do Garotinho, pois estes sim, bateriam na administração. Aí em 2014, romperia com Cabral e lançaria a candidatura do Lindberg ao governo. Não teria dificuldade para pescar uns escândalos dos peemedebistas do Rio de Janeiro. Provavelmente os petistas pensaram que a disputa de 2014 seria pulverizada, que Pezão não teria chance, que o DEM lançaria César Maia, que o PSDB lançaria Bernardinho, Luciano Huck, Ellen Gracie ou algum economista da PUC-RJ, que as Organizações Globo ficariam ao lado do candidato do PSDB, que o PMDB, o DEM e o PSDB dividiram o voto da elite, e que Lindberg enfrentaria Garotinho ou Crivella no segundo turno, podendo contar até mesmo, no segundo turno, com o voto útil da Zona Sul, que rejeita evangélicos. O PT se deu ao luxo de mesmo em 2012, oferecer seu tempo de TV à candidatura à reeleição de Eduardo Paes e a presença de Lula e Dilma nos programas do peemedebista, pois achava que aquela ainda não era a hora da ruptura. Mesmo tendo boa parte da militância do partido ido para as ruas apoiar Marcelo Freixo. Se deu ao luxo também no mesmo ano de 2012, se juntar com PMDB e PSDB para aliviar para Sérgio Cabral na CPI do Cachoeira, que estava investigando a Delta.
A vitória de Lindberg em 2014 era vista em 2011, 2012 e 2013 como um acontecimento muito provável. A elevada votação que ele teve para o Senado em 2010 ajudou a alimentar esta impressão. Trabalhei no serviço público do Estado do Rio de Janeiro neste período, e percebi como tanto quem queria, como quem não queria a vitória do Lindberg esperava que isto fosse acontecer. Alguns petistas imaginaram que a boa votação de Marcelo Freixo em 2012 teria sido uma entrada para o prato principal que seria a vitória de Lindberg em 2014. Chegaram a pensar até que o PSOL poderia aceitar informalmente o papel de linha auxiliar do Lindberg em 2014, pois os principais nomes do PSOL se candidatariam a deputado, e não a governador.
Bom, o plano de pegar o coelhinho da Mônica foi um estrondoso fiasco. Uma Batalha de Itararé. Nunca uma candidatura preparada por tanto tempo (talvez quatro anos) recebeu uma quantidade de votos tão mixaria. Dilma não estava com popularidade em alta, e não pode se dar ao luxo de abrir mão do PMDB, do PRB e do PR, portanto, não teve possibilidade de usar apenas Lindberg como palanque no Rio de Janeiro. O PSOL recusou o papel de linha auxiliar do Lindberg. Lançou o professor Tarcísio Motta, que mesmo desconhecido, brilhou mais que Lindberg nos debates, e só terminou um ponto percentual atrás por causa de Nova Iguaçu. Na capital, o professor superou o senador. Os pobres da Zona Norte, Zona Oeste, Baixada e São Gonçalo, que sempre votaram no Lula ou na Dilma para presidente, se dividiram entre Garotinho, Crivella e Pezão. Lindberg teve 10% cravado dos votos válidos. Por pouco não ficou com apenas um dígito. Nem a aliança com PSB e PV, que deu considerável tempo de TV (inferior ao de Pezão, mas superior ao de Crivella) funcionou. Lindberg talvez esperasse ter votos além dos de eleitores da Dilma (óbvio), também de eleitores da Marina Silva, do Eduardo Jorge e de Luciana Genro. Acabou tendo rejeição de todos eles. No segundo turno entre Pezão e Crivella, os petistas se dividiram entre um dos dois e o nulo.
Mas além das fraquezas da Dilma, do PT e do próprio Lindberg, o que contribuiu para o fracasso deste plano do PT para o Rio de Janeiro? O fato do PMDB também estar pensando estrategicamente em 2010 na hora em que fez o acordo. O PT fez o acordo pensando em como se livrar do PMDB no futuro. Deveria ter considerado o óbvio: o PMDB estava pensando em como se livrar do PT. E foi bem mais sucedido.
Mesmo sendo um partido da base aliada dilmista, o PMDB nunca deixou de ter forte apoio das Organizações Globo no Rio de Janeiro. Em 2014, costurou a aliança Aezão com o PSDB e o DEM. Isto garantiu muito tempo de TV para Pezão, e votos de eleitores da Zona Sul, que haviam ido para Frossard em 2006 e Gabeira em 2010. Se o Plano Lindberg já foi pensado em 2010, muito provavelmente o plano Aezão já foi pensado em 2010 também. Durante o primeiro mandato de Dilma, PMDB, embora com uns atritos de vez em quando, votava com o PT no Congresso Nacional. Na Alerj, PT, embora com uns atritos de vez em quando, votava com o PMDB. Em público, principalmente em inauguração de obras, Cabral e Pezão eram só abraços e tapinhas nas costas com Lula e Dilma. Secretários estaduais do Rio de Janeiro e ministros do governo federal tinham relação cordial em público. Mas ouvindo conversas de secretários para baixo, a impressão que se tinha era que se tratava de um governo estadual de oposição ao federal, igual ao de São Paulo.
Atualmente, PMDB tem o governo do Estado do Rio de Janeiro, a presidência da Alerj, a presidência das duas casas do Congresso Nacional, a vice presidência, e pretende em breve ter a presidência.
O que esta história ensinou de lição? Sempre quando você for fazer uma aliança estratégica com alguém tão diferente, lembre-se de que este alguém também está pensando estrategicamente.
Outra história que ensinou esta lição foi a do Pacto Molotov Ribbentropp de 1939.
E o que esta lição vale para 2015? Os petistas do governo Dilma provavelmente pensam que se derem tudo que a direita quer (entendendo a direita como empresários, mídia, PMDB, PP, PSD, PTB), a direita não vai apoiar em uníssono o golpeachment, o golpeachment se tornará inviável politicamente, e quando a economia se recuperar, será possível dar um pé na bunda em parte da direita que está no governo, uma vez que com a economia se recuperando, o apoio popular se recupera, e o golpeachment se torna inviável de qualquer maneira. Além disso, economia recuperando é mais emendas e cargos para partidos de aluguel, diminuindo o poder de chantagem da direita ideológica sobre o governo. Probleminha: muito provavelmente a direita sabe que os petistas estão planejando isso e já elaborou um plano contra isso.
A face mais visível deste acordo ocorreu no Rio de Janeiro. O PT apoiou Sérgio Cabral para o governo do Estado, e o PMDB apoiou Lindberg para senador. O PT exigiu pouco. Não teve nem a candidatura a vice, nem apoio para a presidência da Alerj, que é cadeira cativa do PMDB. E ao contrário do que ocorre no governo federal. Ao contrário do que ocorre a nível federal, onde o apoio do PMDB ao governo puxa o governo para a direita, a nível estadual no Rio de Janeiro, o apoio do PT não puxa o governo para a esquerda. A administração Cabral/Pezão em nada foi/é diferente das administrações do PSDB de São Paulo. O PT teve duas secretarias com pouco poder político.
Mesmo quando tinha essas duas secretarias, o PT foi irrelevante nas definições dos rumos da administração Sérgio Cabral.
Ainda assim, o PT provavelmente pensou que tinha feito um plano perfeito igual aqueles de pegar o coelhinho da Mônica. Parecia tudo simples. Dilma faria uma administração popular e não teria problema para se reeleger (hahaha). O PT ficaria com as duas boquinhas da administração Cabral, e, portanto, não bateria na administração. Seria caronista do PSOL e do Garotinho, pois estes sim, bateriam na administração. Aí em 2014, romperia com Cabral e lançaria a candidatura do Lindberg ao governo. Não teria dificuldade para pescar uns escândalos dos peemedebistas do Rio de Janeiro. Provavelmente os petistas pensaram que a disputa de 2014 seria pulverizada, que Pezão não teria chance, que o DEM lançaria César Maia, que o PSDB lançaria Bernardinho, Luciano Huck, Ellen Gracie ou algum economista da PUC-RJ, que as Organizações Globo ficariam ao lado do candidato do PSDB, que o PMDB, o DEM e o PSDB dividiram o voto da elite, e que Lindberg enfrentaria Garotinho ou Crivella no segundo turno, podendo contar até mesmo, no segundo turno, com o voto útil da Zona Sul, que rejeita evangélicos. O PT se deu ao luxo de mesmo em 2012, oferecer seu tempo de TV à candidatura à reeleição de Eduardo Paes e a presença de Lula e Dilma nos programas do peemedebista, pois achava que aquela ainda não era a hora da ruptura. Mesmo tendo boa parte da militância do partido ido para as ruas apoiar Marcelo Freixo. Se deu ao luxo também no mesmo ano de 2012, se juntar com PMDB e PSDB para aliviar para Sérgio Cabral na CPI do Cachoeira, que estava investigando a Delta.
A vitória de Lindberg em 2014 era vista em 2011, 2012 e 2013 como um acontecimento muito provável. A elevada votação que ele teve para o Senado em 2010 ajudou a alimentar esta impressão. Trabalhei no serviço público do Estado do Rio de Janeiro neste período, e percebi como tanto quem queria, como quem não queria a vitória do Lindberg esperava que isto fosse acontecer. Alguns petistas imaginaram que a boa votação de Marcelo Freixo em 2012 teria sido uma entrada para o prato principal que seria a vitória de Lindberg em 2014. Chegaram a pensar até que o PSOL poderia aceitar informalmente o papel de linha auxiliar do Lindberg em 2014, pois os principais nomes do PSOL se candidatariam a deputado, e não a governador.
Bom, o plano de pegar o coelhinho da Mônica foi um estrondoso fiasco. Uma Batalha de Itararé. Nunca uma candidatura preparada por tanto tempo (talvez quatro anos) recebeu uma quantidade de votos tão mixaria. Dilma não estava com popularidade em alta, e não pode se dar ao luxo de abrir mão do PMDB, do PRB e do PR, portanto, não teve possibilidade de usar apenas Lindberg como palanque no Rio de Janeiro. O PSOL recusou o papel de linha auxiliar do Lindberg. Lançou o professor Tarcísio Motta, que mesmo desconhecido, brilhou mais que Lindberg nos debates, e só terminou um ponto percentual atrás por causa de Nova Iguaçu. Na capital, o professor superou o senador. Os pobres da Zona Norte, Zona Oeste, Baixada e São Gonçalo, que sempre votaram no Lula ou na Dilma para presidente, se dividiram entre Garotinho, Crivella e Pezão. Lindberg teve 10% cravado dos votos válidos. Por pouco não ficou com apenas um dígito. Nem a aliança com PSB e PV, que deu considerável tempo de TV (inferior ao de Pezão, mas superior ao de Crivella) funcionou. Lindberg talvez esperasse ter votos além dos de eleitores da Dilma (óbvio), também de eleitores da Marina Silva, do Eduardo Jorge e de Luciana Genro. Acabou tendo rejeição de todos eles. No segundo turno entre Pezão e Crivella, os petistas se dividiram entre um dos dois e o nulo.
Mas além das fraquezas da Dilma, do PT e do próprio Lindberg, o que contribuiu para o fracasso deste plano do PT para o Rio de Janeiro? O fato do PMDB também estar pensando estrategicamente em 2010 na hora em que fez o acordo. O PT fez o acordo pensando em como se livrar do PMDB no futuro. Deveria ter considerado o óbvio: o PMDB estava pensando em como se livrar do PT. E foi bem mais sucedido.
Mesmo sendo um partido da base aliada dilmista, o PMDB nunca deixou de ter forte apoio das Organizações Globo no Rio de Janeiro. Em 2014, costurou a aliança Aezão com o PSDB e o DEM. Isto garantiu muito tempo de TV para Pezão, e votos de eleitores da Zona Sul, que haviam ido para Frossard em 2006 e Gabeira em 2010. Se o Plano Lindberg já foi pensado em 2010, muito provavelmente o plano Aezão já foi pensado em 2010 também. Durante o primeiro mandato de Dilma, PMDB, embora com uns atritos de vez em quando, votava com o PT no Congresso Nacional. Na Alerj, PT, embora com uns atritos de vez em quando, votava com o PMDB. Em público, principalmente em inauguração de obras, Cabral e Pezão eram só abraços e tapinhas nas costas com Lula e Dilma. Secretários estaduais do Rio de Janeiro e ministros do governo federal tinham relação cordial em público. Mas ouvindo conversas de secretários para baixo, a impressão que se tinha era que se tratava de um governo estadual de oposição ao federal, igual ao de São Paulo.
Atualmente, PMDB tem o governo do Estado do Rio de Janeiro, a presidência da Alerj, a presidência das duas casas do Congresso Nacional, a vice presidência, e pretende em breve ter a presidência.
O que esta história ensinou de lição? Sempre quando você for fazer uma aliança estratégica com alguém tão diferente, lembre-se de que este alguém também está pensando estrategicamente.
Outra história que ensinou esta lição foi a do Pacto Molotov Ribbentropp de 1939.
E o que esta lição vale para 2015? Os petistas do governo Dilma provavelmente pensam que se derem tudo que a direita quer (entendendo a direita como empresários, mídia, PMDB, PP, PSD, PTB), a direita não vai apoiar em uníssono o golpeachment, o golpeachment se tornará inviável politicamente, e quando a economia se recuperar, será possível dar um pé na bunda em parte da direita que está no governo, uma vez que com a economia se recuperando, o apoio popular se recupera, e o golpeachment se torna inviável de qualquer maneira. Além disso, economia recuperando é mais emendas e cargos para partidos de aluguel, diminuindo o poder de chantagem da direita ideológica sobre o governo. Probleminha: muito provavelmente a direita sabe que os petistas estão planejando isso e já elaborou um plano contra isso.
domingo, 13 de setembro de 2015
Também não me alinho ao anarco marinismo
Em um post que escrevi há alguns dias, expliquei porque eu não sou alinhado nem com o governo, nem com a oposição de direita, nem com a oposição de esquerda. Fiz críticas ao PT, ao PSDB e ao PSOL. Isto pode ter causado a impressão de que eu sou favorável ao anarco marinismo, que também é crítico ao PT, ao PSDB e ao PSOL. Mas não sou.
Em primeiro lugar, o que é o anarco marinismo?
O anarco marinismo é uma corrente política forte na Internet, defendida por blogueiros, tuiteiros, feicebuqueiros e participantes de comunidades virtuais. Tem alguns apoios acadêmicos também. Essa corrente política apoia não partidos, mas movimentos sociais e ONGs. Essa corrente defende o meio ambiente e os direitos. Direitos dos índios, dos quilombolas, dos sem terra, dos sem teto, dos atingidos por grandes obras, dos presidiários, dos moradores de favela, dos estudantes. Repudiam violação de direitos humanos feita por polícias. Alguns dos integrantes desta corrente gostam da Marina Silva. Outros nem tanto, mas consideraram-na a menos pior das três grandes candidaturas do ano passado. Por isso eu dei este nome a esta corrente. Marina Silva é um caso estranho na política brasileira. É um centro, mas um centro diferente de Eduardo Campos. O ex-governador pernambucano é centro porque é centro mesmo, é um meio termo entre PT e PSDB. A ex-senadora acreana é centro porque é uma média de quem está muito à direita com quem está muito à esquerda. Seu programa de governo tinha algumas propostas que estavam à direita de Aécio, por exemplo, a independência do Banco Central e a flexibilização da CLT, não defendidas pelo senador mineiro. Por outro lado, Marina tem seus apoiadores de esquerda, existindo alguns deles que querem dar aula de esquerdismo para o PSOL. O lado esquerdo do apoio à Marina é o anarco marinismo.
Os petistas mais fanáticos acham que tudo que está contra eles é a mesma coisa, por isso, não conseguem distinguir o anarco marinismo do PSOL. Acham que tudo é "trosko". Mas há diferenças importantes entre o anarco marinismo e o PSOL. Ambos apoiam movimentos sociais. Ambos criticam a negligência da Dilma com índios, LGBTT, aborto e legalização de drogas. Mas diferente do PSOL, os anarco marinistas não defendem grande intervencionismo estatal na economia. Também não são liberais. São apenas indiferentes a esta discussão. A leitura dos protestos de 2013 que estes grupos fazem é bem diferente. O PSOL considera que teve o protesto bom, que foi o do MPL e o dos críticos à Copa, e o protesto ruim, que foi o dos fascistas que agrediram militantes de partidos de esquerda, incluindo o PSOL. Os anarco marinistas acham que todos os protestos foram bons, e falam das "Jornadas de Junho", como se tudo tivesse sido uma coisa só. O PSOL é meio cheio de dedos na hora de fazer críticas ao PT por causa da corrupção, prefere fazer outros tipos de crítica. Os anarco marinistas fazem críticas pesadas ao PT por causa de corrupção.
E por que eu não sou anarco marinista?
Eu concordo com muitas ideias dos anarco marinistas. Também considero que o atual governo não é bom, que o PT tem defeitos graves, que não pode ficar no "sempre foi assim, todo mundo fez, é que agora está sendo mais investigado" e que a solução passa por um governo melhor, mais aberto, mais democrático, mais transparente, mas não por mais liberalismo como quer o PSDB nem por mais socialismo como quer o PSOL. Também sou a favor de quem luta por direitos e pelo meio ambiente.
Mas tenho grande divergência com a maneira através da qual os anarco marinistas defendem suas bandeiras. Por exemplo, a defesa que alguns deles fazem dos black bloc. Postam memes dizendo que se as manifestações fossem pacíficas, a Bastilha estaria de pé até hoje. Uma evidente falsa analogia. Muitos movimentos de massas ocorridos entre 1789 e 2013 foram pacíficos. E desobediência não pode ser relacionada automaticamente com violência. Alguns anarco marinistas fazem mimimi contra pessoas de esquerda que não defendem os black bloc, como se isso fosse um absurdo. A rejeição da esquerda ao black bloc é nada mais do que uma posição que a esquerda tradicional, seja comunista, seja social democrata, sempre teve com a ação violenta de pequenos grupos.
Não considero correto falar dos protestos de 2013 como se fosse uma coisa só. Houve vários protestos diferentes, cujos participantes se odiavam. No início de 2013, houve protestos pró e anti Feliciano. Também houve protestos anti Renan. Protestos anti Belo Monte. O Movimento Passe Livre existe desde 2005 (ou antes?), mas ganharam grande evidência em maio de 2013, quando o pau comeu nas ruas de Porto Alegre. Nos dias 10, 11, 12 e 13 de junho houve manifestações do Movimento Passe Livre em São Paulo e no Rio de Janeiro, com grande violência policial. Nos dias 17 e 20 de junho ocorreram os mais famosos protestos das "Jornadas de Junho". Militantes do MPL dividiram as ruas com simpatizantes de pequenos partidos de esquerda, que sempre apoiaram o movimento, militantes do PT, que aproveitaram o momento para tirar casquinha, atacando o governo estadual de São Paulo, pessoas que ficaram simpáticas ao MPL e pessoas mobilizadas por grupos nacionalistas de direita, que aproveitaram o momento para dar uma outra interpretação à luta pela redução do preço das passagens. Estes nacionalistas de direita foram hostis aos partidos de esquerda e ao próprio MPL. As manifestações do 17 e do 20 de junho ocorreram em várias cidades brasileiras e talvez tenham sido os maiores desde as Diretas. Paralelamente, ocorreram os protestos contra a Copa das Confederações. Depois, houve o movimento Fora Cabral e a greve dos professores do Rio de Janeiro, com apoio dos black bloc. Não é possível falar disso tudo como uma coisa só. Há anarco marinistas que defendem os black bloc e relativizam as agressões à esquerda.
É comum ver anarco marinistas falando que "Dilma reprimiu os protestos", como se ela mandasse nas polícias militares estaduais e nas justiças estaduais. Há também críticas a Dilma porque ela mobilizou aparatos de segurança para "garantir a segurança da Copa". Se Dilma merece alguma crítica sobre a Copa é porque quando ela era da Casa Civil em 2007 ela não sugeriu em evitar a candidatura. A cagada foi feita em 2007, e a maior responsabilidade é do Lula. Foi um grande erro o Brasil ter assumido o compromisso com a Fifa, sediar esse tipo de evento não gera benefícios de longo prazo para o país. Mas uma vez assumido o compromisso, não tinha como voltar atrás. Era óbvio que era necessário garantir a segurança da Copa. Protestar é bom, ameaçar a segurança de jornalistas, atletas e turistas não. Como os anarco marinistas têm raiva da Dilma e não do Lula, porque Lula até que dava um pouco de atenção a suas bandeiras, as críticas por causa da Copa são todas dirigidas à Dilma, mesmo tendo sido Lula o responsável pela candidatura.
É comum ver anarco marinistas reclamando que o PSOL está próximo demais do PT. Não acho coerente não ser tão de esquerda assim e querer ensinar o PSOL a ser mais de esquerda do que é. Ou queriam que o PSOL estivesse ajudando o PSDB?
Sem estes equívocos, muitos dos que eu rotulei de anarco marinistas dizem muitas coisas com as quais eu concordo sobre a política nacional e eles têm grande potencial de ser uma nova força para nossa política.
Em primeiro lugar, o que é o anarco marinismo?
O anarco marinismo é uma corrente política forte na Internet, defendida por blogueiros, tuiteiros, feicebuqueiros e participantes de comunidades virtuais. Tem alguns apoios acadêmicos também. Essa corrente política apoia não partidos, mas movimentos sociais e ONGs. Essa corrente defende o meio ambiente e os direitos. Direitos dos índios, dos quilombolas, dos sem terra, dos sem teto, dos atingidos por grandes obras, dos presidiários, dos moradores de favela, dos estudantes. Repudiam violação de direitos humanos feita por polícias. Alguns dos integrantes desta corrente gostam da Marina Silva. Outros nem tanto, mas consideraram-na a menos pior das três grandes candidaturas do ano passado. Por isso eu dei este nome a esta corrente. Marina Silva é um caso estranho na política brasileira. É um centro, mas um centro diferente de Eduardo Campos. O ex-governador pernambucano é centro porque é centro mesmo, é um meio termo entre PT e PSDB. A ex-senadora acreana é centro porque é uma média de quem está muito à direita com quem está muito à esquerda. Seu programa de governo tinha algumas propostas que estavam à direita de Aécio, por exemplo, a independência do Banco Central e a flexibilização da CLT, não defendidas pelo senador mineiro. Por outro lado, Marina tem seus apoiadores de esquerda, existindo alguns deles que querem dar aula de esquerdismo para o PSOL. O lado esquerdo do apoio à Marina é o anarco marinismo.
Os petistas mais fanáticos acham que tudo que está contra eles é a mesma coisa, por isso, não conseguem distinguir o anarco marinismo do PSOL. Acham que tudo é "trosko". Mas há diferenças importantes entre o anarco marinismo e o PSOL. Ambos apoiam movimentos sociais. Ambos criticam a negligência da Dilma com índios, LGBTT, aborto e legalização de drogas. Mas diferente do PSOL, os anarco marinistas não defendem grande intervencionismo estatal na economia. Também não são liberais. São apenas indiferentes a esta discussão. A leitura dos protestos de 2013 que estes grupos fazem é bem diferente. O PSOL considera que teve o protesto bom, que foi o do MPL e o dos críticos à Copa, e o protesto ruim, que foi o dos fascistas que agrediram militantes de partidos de esquerda, incluindo o PSOL. Os anarco marinistas acham que todos os protestos foram bons, e falam das "Jornadas de Junho", como se tudo tivesse sido uma coisa só. O PSOL é meio cheio de dedos na hora de fazer críticas ao PT por causa da corrupção, prefere fazer outros tipos de crítica. Os anarco marinistas fazem críticas pesadas ao PT por causa de corrupção.
E por que eu não sou anarco marinista?
Eu concordo com muitas ideias dos anarco marinistas. Também considero que o atual governo não é bom, que o PT tem defeitos graves, que não pode ficar no "sempre foi assim, todo mundo fez, é que agora está sendo mais investigado" e que a solução passa por um governo melhor, mais aberto, mais democrático, mais transparente, mas não por mais liberalismo como quer o PSDB nem por mais socialismo como quer o PSOL. Também sou a favor de quem luta por direitos e pelo meio ambiente.
Mas tenho grande divergência com a maneira através da qual os anarco marinistas defendem suas bandeiras. Por exemplo, a defesa que alguns deles fazem dos black bloc. Postam memes dizendo que se as manifestações fossem pacíficas, a Bastilha estaria de pé até hoje. Uma evidente falsa analogia. Muitos movimentos de massas ocorridos entre 1789 e 2013 foram pacíficos. E desobediência não pode ser relacionada automaticamente com violência. Alguns anarco marinistas fazem mimimi contra pessoas de esquerda que não defendem os black bloc, como se isso fosse um absurdo. A rejeição da esquerda ao black bloc é nada mais do que uma posição que a esquerda tradicional, seja comunista, seja social democrata, sempre teve com a ação violenta de pequenos grupos.
Não considero correto falar dos protestos de 2013 como se fosse uma coisa só. Houve vários protestos diferentes, cujos participantes se odiavam. No início de 2013, houve protestos pró e anti Feliciano. Também houve protestos anti Renan. Protestos anti Belo Monte. O Movimento Passe Livre existe desde 2005 (ou antes?), mas ganharam grande evidência em maio de 2013, quando o pau comeu nas ruas de Porto Alegre. Nos dias 10, 11, 12 e 13 de junho houve manifestações do Movimento Passe Livre em São Paulo e no Rio de Janeiro, com grande violência policial. Nos dias 17 e 20 de junho ocorreram os mais famosos protestos das "Jornadas de Junho". Militantes do MPL dividiram as ruas com simpatizantes de pequenos partidos de esquerda, que sempre apoiaram o movimento, militantes do PT, que aproveitaram o momento para tirar casquinha, atacando o governo estadual de São Paulo, pessoas que ficaram simpáticas ao MPL e pessoas mobilizadas por grupos nacionalistas de direita, que aproveitaram o momento para dar uma outra interpretação à luta pela redução do preço das passagens. Estes nacionalistas de direita foram hostis aos partidos de esquerda e ao próprio MPL. As manifestações do 17 e do 20 de junho ocorreram em várias cidades brasileiras e talvez tenham sido os maiores desde as Diretas. Paralelamente, ocorreram os protestos contra a Copa das Confederações. Depois, houve o movimento Fora Cabral e a greve dos professores do Rio de Janeiro, com apoio dos black bloc. Não é possível falar disso tudo como uma coisa só. Há anarco marinistas que defendem os black bloc e relativizam as agressões à esquerda.
É comum ver anarco marinistas falando que "Dilma reprimiu os protestos", como se ela mandasse nas polícias militares estaduais e nas justiças estaduais. Há também críticas a Dilma porque ela mobilizou aparatos de segurança para "garantir a segurança da Copa". Se Dilma merece alguma crítica sobre a Copa é porque quando ela era da Casa Civil em 2007 ela não sugeriu em evitar a candidatura. A cagada foi feita em 2007, e a maior responsabilidade é do Lula. Foi um grande erro o Brasil ter assumido o compromisso com a Fifa, sediar esse tipo de evento não gera benefícios de longo prazo para o país. Mas uma vez assumido o compromisso, não tinha como voltar atrás. Era óbvio que era necessário garantir a segurança da Copa. Protestar é bom, ameaçar a segurança de jornalistas, atletas e turistas não. Como os anarco marinistas têm raiva da Dilma e não do Lula, porque Lula até que dava um pouco de atenção a suas bandeiras, as críticas por causa da Copa são todas dirigidas à Dilma, mesmo tendo sido Lula o responsável pela candidatura.
É comum ver anarco marinistas reclamando que o PSOL está próximo demais do PT. Não acho coerente não ser tão de esquerda assim e querer ensinar o PSOL a ser mais de esquerda do que é. Ou queriam que o PSOL estivesse ajudando o PSDB?
Sem estes equívocos, muitos dos que eu rotulei de anarco marinistas dizem muitas coisas com as quais eu concordo sobre a política nacional e eles têm grande potencial de ser uma nova força para nossa política.
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